| Farol La Jument (1911) - França |
Eu sei. Não é exatamente uma Ode. Afinal, "Ode" quer dizer "Canto" — e, em sua definição clássica, é uma composição poética do gênero lírico, dividida em estrofes simétricas.
Mas sejamos honestos: sempre quis escrever algo com "Ode" no título. Como ninguém além de mim lê este blog mesmo, vou chamar de Ode mesmo — e nada vai me acontecer.
Tenho essa mania de buscar significado em coisas que passam batido para a maioria. Algumas dessas coisas me parecem tão fascinantes e intrigantes que sinto que merecem um canto — seja no sentido de Ode ou no sentido de espaço mesmo, como uma simples crônica neste sítio virtual. Escrever sobre elas é meu jeito de trazer esses sentimentos para um universo um pouco mais palpável.
Não é tão simples quanto escrever um diário de viagem. Afinal, nos diários, os fatos estão lá. A ordem cronológica existe. Basta narrá-los.
No caso das "coisas", é um pouco diferente. Até porque seu impacto é relativo, ou seja, pode variar de pessoa para pessoa.
Escrever este texto é como abrir uma velha caixa cheia de imagens, lembranças, sons, referências e sentimentos — e tentar alinhá-los. É como lançar as peças de um quebra-cabeça sobre a mesa, buscando sentido na mistura, até que surja, enfim, uma imagem que diga: é isso.
É uma introdução meio estranha, eu sei. Talvez tão estranha quanto o assunto deste texto.
Sempre tive um certo fascínio por alguns tipos de "landmarks". Seja por por sua longevidade, pelo mistério que cerca sua origem ou ainda por sua função — motivo maior de sua existência.
“Landmark” vem da junção de “land” (terra) + “mark” (marca), ou seja, literalmente uma marca na terra, algo que se destaca, guia, delimita, orienta e que pode ser geográfico (uma montanha, um cânion, etc) ou arquitetônico (uma torre, um prédio famoso, etc). Seu significado também está associado à eventos importantes na história de algo, tipo um divisor de águas.
Em geral, construções históricas me despertam curiosidade e interesse. Os Moais da Ilha de Páscoa são um bom exemplo. A Stonehenge é outro.
Olhando para construções mais contemporâneas, gosto de igrejas (especialmente as período colonial) e dos vastos campos de geradores eólicos. Mas os meus preferidos são, de longe, os faróis marítimos, cujo o nome em inglês: Lighthouse, me parece muito mais apropriado, bonito e sonoro.
O encantamento pelos faróis não é uma particularidade minha e também não é novidade. O Farol de Alexandria — o primeiro de que se tem notícia e, talvez, o mais espetacular de todos — foi erguido entre 280 e 247 a.C., no Egito. Com cerca de 120 metros de altura, figurou por séculos entre as estruturas mais altas do mundo. Era uma das sete maravilhas da Antiguidade. Mas acabou destruído por três terremotos, entre 956 e 1323 d.C., e em seu lugar, séculos depois, ergueu-se a Cidadela de Qaitbay, em 1477.
Em minhas modestas andanças pelo Brasil, tive a graça de conhecer alguns faróis. Alguns se erguiam em áreas urbanas, outros, em pontos mais isolados. Vi estruturas bem cuidadas, quase sagradas e outras mais rústicas — torres simples, quadradas, rudimentares. Mas todas, sem exceção, carregavam aquele mesmo espírito: solene, simbólico, silenciosamente grandioso, que sempre procuro corresponder com respeito e admiração.
Até a data da publicação deste texto, eram nove os faróis que faziam parte da minha coleção. Infelizmente não consegui fotografar apropriadamente a maioria deles. Algumas vezes por inexperiência, outras pela impossibilidade de ângulos melhores mas, na maioria absoluta das vezes, por causa de uma incompreensível pressa que não sei de onde vem mas que sempre me impede de observar com cuidado os detalhes, procurar ângulos mais favoráveis e, claro, obter melhores composições.
É fato que os Faróis ilustram conceitos como adversidade, perigo e vigilância. Mas também anunciam salvação, orientação e segurança. São metáforas acesas à beira do abismo. Vigias do mundo
Um farol indica o caminho e serve de auxílio em águas agitadas, quer sejam essas águas financeiras, pessoais ou espirituais. Raramente algo ilustra mais a segurança e proteção em momentos de tribulação do que um farol.
São como entidades que trazem consigo alguns dos ideais mais elevados da humanidade. Tal qual um guardião, uma luz acesa diante das mais terríveis situações. Um gigante solitário nos locais mais desolados, projetado para suportar as mais terríveis condições climáticas e permanecer incansável em sua missão de orientar navegantes.
São luzes que se elevam como uma estrela guia, representando, em última instância, a providência divina pois, um farol brilhando sobre mares violentos, são flagrantes símbolos de salvação e direção, levando aqueles que estão em perigo, seja de manifestações físicas ou de provações espirituais à um lugar seguro e de descanso.
São estruturas muitas vezes centenárias, testemunhas mudas de um mundo em constante transformação, cuja função, apesar de toda evolução tecnológica, continua sendo de extrema importância. No passado, quase sempre eram operados e mantidos por um faroleiro. Hoje, muitos são automatizados ou operados remotamente, como se tivessem vida própria e consciência de sua missão.
Não sei explicar ao certo o que me atrai aos faróis. Talvez sua intimidade com o mar. Talvez sua condição de isolamento e solidão altiva. Ou ainda essa posição de sentinela, como uma presença firme no limiar entre o caos e o abrigo.
Brilhante como mais uma estrela debaixo de um céu limpo ou impávido diante das mais inclementes manifestações de fúria da natureza. Sempre pronto a ser referência pois, uma vez que um farol é visto, todo o mar fica segundo plano.
A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. (João 1:5)
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