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Tempo de Casa


Não é todo dia que se faz doze anos de empresa. Mais de uma década. Isso apenas na empresa onde estou agora — uma entre várias do grupo América Movil.

No grupo e no prédio onde trabalho, já passei dos vinte anos.

Tempo suficiente para ver modas irem e virem, estagiários crescerem, reformulações acontecerem, velhos amigos irem embora. Para passar por mudanças de área, de tecnologia, de chefe, de andar e de endereço. Acho que até participei rapidamente da brigada como representante do meu departamento e treinamentos de evacuação em caso de incêndio ou emergências similares. 

Ah, quase me esqueci, é tempo suficiente para tomar muito... mas muito café de máquina. Tanto que, enquanto escrevia esta frase, me perguntei quanto de café de máquina eu teria tomado ao longo de todo esse tempo de empresa e tentei fazer a famosa "conta de padeiro". O resultado me impressionou: Considerando as outras empresas do grupo e uma média de 3 cafezinhos por dia durante 22 anos (descontando os 3 anos de pandemia e home office ), dá um total estimado de 2.331 litros de café da máquina da firma, Poeticamente, é quase um pequeno lago escuro onde boia a alma do expediente.

Até por um terremoto real eu passei. Era uma manhã normal do dia 2 de abril de 2018. Eu trabalhava normalmente no 14º andar, quando de repente senti uma espécie de vertigem, uma tontura estranha.

— Acho que estou passando mal — pensei.

No mesmo segundo, outras pessoas próximas disseram a mesma coisa:

— Nossa gente! Tô passando mal.

Instantaneamente falei:

— É o prédio!

Catei minha mochila e corri para a saída de emergência mais próxima. Desci dois andares e empaquei na escadaria lotada. O que mais tinha era gente brincando, tirando selfie e fazendo piada. 

Em situações emergenciais como essa poderia ter sido, quando ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, o correto é descer rapidamente, em silêncio, deixando a esquerda livre, para a subida dos bombeiros, caso necessário. 

Não foi nada de mais, é verdade. Mas se  a diferença entre a vida e a morte fosse uma questão de minutos apenas, certamente eu teria morrido. E morrido puto, junto com um bando de "sem noção".

Quando finalmente saí do prédio, liguei para o meu pai e pedi que pesquisasse na internet se havia alguma notícia de terremoto. Não consegui pesquisar pois o acesso à internet móvel estava bastante difícil. Possivelmente congestionado pela quantidade de pessoas usando naquele mesmo momento. Minutos depois, ele ligou de volta com a resposta. Sim! Houve um terremoto na Bolívia com reflexos sentidos em várias partes do Brasil.

Sei que não é este o assunto agora, mas aproveitei para registrar aqui essa minha marcante experiência com terremotos. Não foi grande coisa, eu sei. Mas vai pro currículo: Sobrevivente Terremoto, São Paulo, 2018, no item Qualificações ou Atividades Extra Curriculares.

Enfim, voltando aos 12 anos de empresa. Acho legal quando a empresa se lembra dos funcionários após algum período de serviços prestados e se dá ao trabalho de pensar em alguma lembrança ou presente corporativo que simbolize esse tempo de dedicação — fora do kit padrão mochila, cordão para crachá, squeeze, claro — desta vez, ganhei um Kindle. 

Para quem não sabe, trata-se de um e-reader  parecido com um smartphone ou tablet. No entanto, sua funcionalidade é ser apenas um leitor de livros digitais. Possui acesso à internet mas não é possível fazer mais nada além de comprar livros e ler.

É uma ironia deliciosa. Passei a vida acumulando livros físicos, enchendo prateleiras e equilibrando pilhas instáveis ao lado da cama, vendo-os amarelar pela ação do tempo e me desfazendo deles, ainda que com dor no coração, quando sentia que já não eram mais tão importantes ou quando precisava de algum espaço. 

Sempre tive a impressão de que o peso de um livro dava mais “autoridade” à leitura. Mas agora, segurando esse pequeno tablet de tinta digital, percebo que, se os livros fossem assim desde sempre, talvez minha coluna tivesse me agradecido mais cedo.

Neste aparelhinho cabem muito mais do que todos os livros que tenho em casa atualmente. Talvez mais até que todos os livros que já li na vida e, com um clique, posso aumentar essa coleção sem precisar reorganizar tudo depois. Nenhuma lombada amassada, nenhuma folha perdida para umidade ou traças. O que é uma pena, porque eu tinha um talento especial para comprar livros e esquecê-los na estante, onde envelheciam como vinho (ou como jornais velhos, dependendo da qualidade do papel).

E pensar que, quando comecei na empresa, ainda imprimíamos tudo! Memorandos, relatórios, até e-mails viravam papel. Hoje, tudo cabe em um drive na nuvem — assim como meus livros agora cabem no Kindle. Evoluímos. Adotamos a tecnologia. Reduzimos o desperdício (exceto o de tempo, que ainda gastamos em reuniões improdutivas e intermináveis. Se essas calls acumulassem milhas, certamente eu já teria conhecido o mundo, mas já tratei disso em outro texto desses. Clique aqui para ler).

Agora aqui estou, depois de (mais) dez anos, segurando um presente que representa mais do que apenas um gadget. Representa mudança. Representa adaptação. Representa evolução. Representa… bom, representa que agora não tenho mais desculpas para não ler vários daqueles clássicos que jurei que um dia leria. 

Agora, se me dão licença, preciso descobrir se "comprar e não ler" também acontece no digital.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

PS: Abaixo, a reportagem sobre o terremoto que não me deixa mentir sozinho:


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