Pode parecer absurdo, mas escrevi a introdução deste texto há mais de 12 anos.
(Leia aqui).
Não lembro bem o motivo, mas resolvi transformar aquela introdução numa pequena crônica e deixar o assunto principal para depois. Bem depois, por sinal.
No final das contas, foi bom. Eu me conheço. Sei que, se tivesse escrito este texto naquela época, eu o teria recheado de termos técnicos, distâncias, coordenadas e todo tipo de detalhes que não interessam a quase ninguém.
Não é novidade que tenho o hábito de escrever sobre "coisas". E este será mais um texto desses.
Poucas coisas são mais charmosas do que uma locomotiva à vapor, chegando ou partindo numa cidade histórica. Especialmente quando aquele apito fino rasga as manhãs mineiras, tocando os corações daqueles que acreditam que o passado ainda passeia entre a gente.
A Estrada de Ferro Oeste de Minas, a famosa EFOM, nasceu lá por 1878 com um propósito nobre: encurtar distâncias, carregar sonhos e costurar o mapa do Brasil com linhas de aço e esperança.
Com sua bitola de apenas 76 centímetros, carinhosamente apelidada de "Bitolinha", ela serpenteou montanhas, atravessou vilas e cidades e deixou uma trilha de histórias que nem o tempo teve coragem de apagar.
Dizem que o trem não levava só passageiros e café: levava suspiros, cartas dobradas e beijos escondidos atrás das cortinas dos vagões.
Imagine a quantidade de histórias que deixamos (ou deixaremos) de contar só porque os trens pararam de circular.
E pensar que poderíamos estar conectados de Norte a Sul por esses trilhos! Que falta faz uma rede ferroviária que funcione, que transporte não só cargas, mas vidas, histórias e turistas ávidos por um Brasil que se esconde onde o asfalto não chega ou chega de forma precária.
Imagine o quanto de cultura, comércio, sotaques, receitas e belezas naturais se revelariam se, ao invés de ignorarmos os trilhos, déssemos a eles o devido respeito.
Afinal, um país que conhece e desenvolve sua estrutura é um país que sabe onde pisa.
Hoje, o que restou desse tempo mora, com toda dignidade, em 12km de trilhos entre Tiradentes e o coração de São João del Rey, no Museu Ferroviário da EFOM. Um templo do vapor, onde repousa a alma da Bitolinha.
Lá dentro, entre locomotivas centenárias, uniformes engomados e ferramentas que rangem memórias, a gente entende o que significa preservar. É como manter acesa a lamparina que mostra como era possível fazer mais com menos, menos recursos, menos tecnologia, menos desvios...
Cada peça, cada trilho, cada fotografia amarelada é um testemunho de que o Brasil é capaz de andar sobre os próprios sonhos.
Quem já embarcou nessa curta viagem mineira sabe: ali o tempo se curva. É como se o trem carregasse também as boas maneiras, a conversa fiada, o cheiro de infância e o gosto de uma época que não volta mais.
As janelas não mostram apenas paisagens, mostram saudades. É quase um reencontro com algo que a gente nunca viveu, mas sabe sentir, como uma lembrança herdada dos avós.
E é por isso que, com o coração cheio de esperança e nostalgia, eu espero que o Brasil um dia volte novamente aos trilhos.
Que volte a caminhar com leveza, entre montanhas e vales, com seus olhos voltados para o horizonte adiante e os pés firmes no chão. Entendendo que é muito maior do que políticos, que vem e vão e suas ideologias que não fazem outra coisa a não ser promover divisão.
Que escute o apito e entenda que está na hora de partir. Partir para mudança, renovação, embarcando sem medo no trem do possível.
Até a próxima!
Fabior

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