A desilusão é algo interessante.
É bem provável que haja uma série de estudos sobre isso e, provavelmente, todos eles teorizando sobre desequilíbrios químicos, orgânicos e/ou desordens psicológicas.
Não é esse o meu ponto de vista - O de quem analisa ou estuda. Mas, sim, o de quem vive ou já viveu em algum momento da vida.
Há muitas formas de desilusão e ela nem sempre grita. Muitas vezes, ela sussurra ou permanece em silêncio, escondida nos cantos da rotina. Algumas pessoas se recolhem a uma cama da qual não querem mais sair. Outras mergulham fundo nos vícios, como quem busca anestesiar seu interior. Há ainda aquelas que colocam a vida no modo automático: levantam, trabalham, pagam contas, cumprem agendas… e até escrevem poemas. Tudo segue funcionando por fora, mas por dentro, o sentido das coisas se perdeu. Tudo até parece em ordem, mas já não vibra, não pulsa.
É como aquele aviso que vi uma vez, colado no vidro de uma dessas máquinas de refrigerantes:
“A luz de dentro apagou, mas ainda funciono.”
Aquilo me atingiu em cheio. Era mais do que uma aviso técnico: era um espelho. Um retrato dessa rotina que tantos vivem, onde o corpo responde, mas a alma entra em ponto morto.
Procurei retratar um pouco dessa sensação nos versos abaixo. Numa pretensiosa tentativa de mapear esse lugar, transitando pelos diversos "fundos" onde parecemos sempre estar — o fundo do poço, da alma, das gavetas, da fé e da mentira.
O texto cava camadas de silêncio e exílio, tentando entender o que acontece quando o sentido escapa mas a engrenagem insiste em girar.
A expressão “no fundo” é repetida como uma âncora em cada estrofe. A ideia é criar um ritmo hipnótico e simbólico, como se cada verso cavasse mais fundo nas dores humanas: pessoais, coletivas, existenciais.
Ele pode ser lido como um mapa poético da desilusão, mas também como uma sinal de lucidez em tempos de caos. Um poema que observa, denuncia e, em certa medida, também acolhe.
O “poço” é o clássico lugar da queda, da crise. Do caos interno que transborda para o olhar, que já não vê um rumo. A metáfora dos olhos, como espelhos da alma, reforça a ideia de que o colapso é interno, mas visível, perceptível.
Essa estrofe fala de acúmulos. Os “entulhos da vida” que soterram o ser. E o coração, geralmente símbolo de calor e emoção, está gelado. A “existência entorpecida” sugere um tipo de anestesia emocional, como se o sentir tivesse sido suspenso pelo cansaço.
A memória também não fica de fora. O mar, profundo e imprevisível, abriga os destroços do afeto. Enquanto a gaveta, guarda fragmentos do que foi vivido, mas esquecido. Um passado meio apagado, talvez não por vontade, mas pelo peso do tempo.
Porque não tocar tocar no plano espiritual e ético, também ? “Os cansados de ouvir o que nunca ouviram” é uma ironia dolorida. É o clássico tipo de gente que sinaliza virtudes, mas em quem encontramos apenas repetições vazias e cujas atitudes não correspondem ao discurso.
Não poderia faltar também uma crítica ao relativismo e às camadas manipuladas da verdade. Denunciando que as piores mentiras são aquelas costuradas sobre pequenas verdades mal alinhadas.
Na última estrofe, um epílogo filosófico. As frases de porta de banheiro. Muitas vezes cínicas, grosseiras, poéticas ou absurdamente verdadeiras, que funcionam como grafitti da alma coletiva.
E o último verso, embora um tanto áspero, revela que por trás de cada esforço ou conquista, existe a renuncia, a abnegação, o negar a si mesmo e seus prazeres em detrimento de um objetivo maior. O sacrifício pessoal que dá o verdadeiro valor á cada passo além, a cada milha percorrida, a cada obstáculo superado.
E talvez, só talvez, debaixo dos escombros do colapso, ainda haja mais do que a queda. Quem sabe a desilusão, se vista bem de perto, seja só o intervalo entre um sopro e outro de esperança.
Enquanto isso, a poesia é o aviso que deixamos colado no vidro:
“A luz de dentro apagou, mas eu ainda funciono.”

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