Conto breve de Paulo Coelho: Amar em Silêncio é Viver de Enganos
Um casal de velhos tomava café no dia de suas bodas de ouro.
A mulher passou manteiga na parte crocante do pão e estendeu para o marido, ficando com o miolo.- “Sempre quis comer a melhor parte”, pensou consigo mesma. “Mas amo meu marido e sempre lhe dei o miolo. Hoje gostaria de satisfazer meu desejo.”
Para sua surpresa, o rosto do marido abriu-se num sorriso.
“Obrigado por este presente”, disse ele. “Sempre quis comer a casca. Mas, como você gostava tanto, eu nunca ousei pedir.”
Publicado originalmente em 1995, na Folha de São Paulo
Li esse texto quando tinha 18 anos. Naquela época, não havia redes sociais e os textos "fora da curva" vinham impressos, discretos, perdidos entre colunas de economia e classificados ou em forma de crônica, na última página de alguma revista.
No caso deste, achei tão profundo que acabei recortando aquele pedacinho de página de jornal e guardando. E guardei tão bem guardado que sobreviveu aos muitos anos de desatenção e às limpezas de gaveta.
Mais tarde, quando o mundo se tornou digital, acabei transcrevendo-o para um arquivo e salvei num drive, na cloud. Ocorre que, hoje, enquanto procurava um outro arquivo no meu drive, acabei passando os olhos por ele. Não sei se eu o encontrei ou ele me encontrou novamente. E, já que tenho esse blog, pensei que talvez pudesse compartilhá-lo com algum hipotético visitante desavisado que esteja aqui por acidente.
Evidentemente que não poderá ser recortado, como fiz há 30 anos. No máximo poderá virar um print e, com alguma sorte, quem sabe até um stories, tendo Oceans (instrumental) como trilha sonora.
Porque tem histórias que nos seguem. Histórias curtas, às vezes, mas donas de uma profundidade, que acabam nos marcando.
E essa é uma verdadeira lição sobre amor e silêncio.
Quantas vezes a gente ama calado, acha que está fazendo o melhor, quando na verdade só está presumindo o que o outro quer? Quantos gestos gentis nascem de mal-entendidos silenciosos? O pão, neste caso, é só um símbolo. O que está em jogo é a comunicação, o desejo, a gentileza mal distribuída.
O amor, quando não conversado, vai empilhando miolos e crostas — e às vezes ninguém come o que realmente queria.
E você? Tem algum texto que te acompanhou por anos assim também? Porque é isso que faz um bom texto: seguir vivendo nas gavetas alheias, nos drives dos leitores, nos blogs de seus admiradores e nas nuvens da memória emocional.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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