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Serie Tolstói: De quanta terra um homem precisa (1886).


Tem dias em que nos pegamos abrindo mais espaço na estante da vida, entulhando mais projetos, mais ideias, mais sonhos… mas, principalmente, mais vaidades também. 

É em momentos como esse, que Tolstói nos puxa pelo colarinho da alma para sentar novamente na cadeira da realidade. 

Com um conto curto e seco ele pergunta: “De quanta terra precisa um homem?”

A história é de um camponês chamado Pakhom. Ele começa com pouco. Sonha com mais. Conquista terras e mais terras mas segue querendo sempre mais. Sempre achando que se tivesse mais terras, finalmente seria feliz. Até que ouve falar de uma tribo distante, os Bashquíres, que oferecem tanta terra quanto o homem puder andar num único dia. Mas com uma condição: ele deve voltar ao ponto de partida antes do pôr do sol. Se conseguir, tudo que o seu passo puder contornar será seu.

É aí que entra em ação o doce (ou nem tão doce assim) veneno da ambição…

Pakhom parte de manhã cedo, afoito, calculando distâncias com os olhos, como quem tenta medir a eternidade com um balde. E ele anda, anda, anda… e anda mais. Cada novo pedaço a frente parece essencial. Nessa jornada, ele consome todo o pão e água que levou. Em nome da mobilidade, se livra daquilo o que o incomoda e atrapalha, como algumas roupas e as botas. Se sente exausto, mas tem medo de parar para descansar e perder tempo. 

Mas quando o sol começa a cair, percebe que talvez tenha ido longe demais e não haja tempo para voltar ao ponto de partida antes do pôr do sol. E ele corre, corre e corre de volta, desesperado, se esforçando ao máximo, empurrando todos os seus limites, a ponto de sentir o coração como um tambor, explodindo dentro do peito.

E, por um triz, ele consegue chegar, mas... morre na chegada. E o final é como um golpe seco: 

“Seu criado pegou a pá e cavou uma cova grande o suficiente para Pakhom deitar e o enterrou nela. Sete palmos de terra. É tudo que um homem realmente precisa.”

Tolstói é dono de uma narrativa limpa e afiada. Ele não grita, apenas mostra. E o que ele mostra neste conto é o abismo sutil entre o necessário e o excesso. A tentação de sempre querer mais, como se o “mais” pudesse preencher o que, na verdade, só o “bastante” sustenta.

O conto é de 1886. E cá estamos nós, mais de um século depois, com bolsos cheios (ou não) e almas murchas. Compramos cursos, produtos, seguidores, casas maiores, carros maiores, títulos e metas de cinco anos. Tudo para cercar com passos simbólicos a nossa própria vaidade. 

Talvez, no fundo, ainda precisemos da mesma medida de sempre: o suficiente para plantar um pouco de alegria, colher alguma paz e, quem sabe, deitar à noite com o coração em silêncio.

Tolstói me conquistou porque escreve como quem planta: limpa a terra, cava fundo e planta ideias que demoram a florescer, mas quando florescem, é impossível desver.

No fim das contas, o que ele nos deixa nesse conto, obviamente não é uma crítica à riqueza em si, mas um lembrete sagrado: há um ponto onde o acúmulo deixa de ser conquista e vira prisão. 

E que, talvez, a pergunta mais importante da vida não seja “quanto posso ter?”, mas “de quanto realmente preciso para ser?”

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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1 Comentários

  1. Anônimo6/6/25 05:32

    Este texto é uma reflexão poderosa e atual sobre os excessos que acumulamos na vida. Com uma narrativa sensível e bem construída, usa o conto de Tolstói como espelho da nossa ambição desmedida. Destaca, com beleza e precisão, a importância de redescobrir o valor do “bastante” em vez de perseguir o “mais” sem fim.

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