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Série Tolstói - Deus vê a verdade, mas espera. (1872)

Entre as muitas histórias que Tolstói nos deixou, Deus vê a verdade, mas espera é uma das mais curtas e, paradoxalmente, uma das mais profundas.

O próprio título já é uma provocação forte: "Deus vê a verdade, mas espera." 

Trata-se de uma narrativa simples, quase ingênua, mas que esconde uma grande força espiritual.

Aksênov é um homem comum: trabalhador, respeitado, pai de família. Mas uma viagem de negócios muda tudo quando ele é injustamente acusado de assassinato. Condenado e enviado para uma prisão na Sibéria, vê sua vida desmoronar. Família, liberdade, dignidade. Tudo lhe é tirado.

Mas Tolstói não está interessado apenas na tragédia da injustiça. Ele quer mostrar o que sobrevive dentro do homem quando todo o resto é arrancado.

Para isso, ele opera uma destruição sistemática. O Estado condena Aksênov injustamente. Os homens o abandonam. A própria esposa duvida dele. 

Tolstói remove, uma a uma, todas as fontes humanas de validação. E é justamente nesse esvaziamento que o conto encontra sua força. O sofrimento prolongado não apenas fere o homem, mas mata o homem antigo. 

Décadas depois, Aksênov não é mais o mesmo. Torna-se quase monástico. A revolta que um dia o consumiu deu lugar à serenidade, e os outros passam a respeitá-lo, a buscar seus conselhos, a confiar nele.

O auge da história chega quando o verdadeiro assassino aparece. Aksênov tem nas mãos a chance de vingar-se e escolhe o perdão. Mas esse perdão não nasce da ingenuidade, nem da obediência a uma doutrina. Nasce de alguém que sofreu tanto que percebeu que o ódio já não lhe devolveria nada. 

Aksênov não perdoou apesar de si mesmo. Perdoou através de si mesmo. O sofrimento não o moldou em outra coisa, apenas revelou o que sempre esteve lá. Ao perdoar, ele deixa de esperar qualquer reparação do mundo. E é justamente nesse abandono que encontra sua liberdade. Antes da morte, alcança a paz que nenhuma absolvição humana poderia dar.

Tolstói escreveu esse conto numa fase de virada espiritual. Ele admirava os ensinamentos morais de Jesus: o amor aos inimigos, a não-retaliação, a renúncia ao ego, a verdade interior acima das instituições. Seu foco havia migrado das paixões aristocráticas de Anna Kariênina e das grandes batalhas de Guerra e Paz para algo mais essencial: a transformação interior do homem comum. É a fase mais densa e honesta de seu trabalho. E a minha preferida também.

E aqui ele sugere algo incômodo mas real: a verdade (ou o socorro) muitas vezes chega tarde. Tarde demais para devolver a juventude, a família ou os anos perdidos. E o que resta então? O que acontece com a alma humana enquanto ela espera ou quando se cansa de esperar?

Aksênov é a resposta viva dessa pergunta. Ele não muda o mundo. Muda a si mesmo. E talvez seja por aí que toda transformação real começa. Mas não como uma prescrição a ser seguida e sim como uma revelação do que sempre foi.

Talvez seja esse o aspecto mais perturbador do conto: Deus vê a verdade desde o início. Ainda assim, permanece em silêncio enquanto décadas de sofrimento atravessam a vida de um inocente. 

Tolstói não oferece uma resposta confortável para isso. Oferece apenas a possibilidade de que, durante a espera, a alma humana também esteja sendo revelada.

Aksênov perdoou porque ele era assim. A pergunta que o conto nos deixa não é se devemos fazer o mesmo. Mas se, no fundo de quem somos, seríamos capazes de fazer o mesmo.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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