Terminei o dia soterrado.
Sim, é uma metáfora. Mas é essa a sensação física de quem passou horas sendo enterrado, camada por camada, por um deslizamento de estímulos sonoros que começou antes mesmo de eu chegar ao trabalho.
No transporte público, alguém ao meu lado conduzia uma conversa em volume de palestra. E nem era uma conversa importante. Era o tipo de conversa que acontece em voz alta não porque o assunto exige, mas porque (por algum motivo) a voz precisa ocupar espaço.
No trabalho, as reuniões seguiam uma lógica parecida: os argumentos mais fortes não eram os mais bem construídos, eram os mais altos. A intensidade substituindo o conteúdo. O volume fazendo o trabalho que o raciocínio não quis fazer.
No caminho para o almoço, os escapamentos das motos competiam em decibéis enquanto as lojas disputavam qual caixa de som conseguia expulsar mais clientes da calçada.
No restaurante, o fenômeno das reuniões se repetia em escala inversamente proporcional ao tamanho do espaço. Um ambiente relativamente pequeno, mas tão barulhento quanto um estádio. Parecia que as conversas não se encontravam, mas se chocavam e reverberavam no ambiente. Tentar manter a palavra falando mais alto que o outro parece uma tendência universal.
De volta ao trabalho, a cada cinco minutos, pares de sapatos atravessavam o corredor como martelos castigando o piso de madeira.
E na volta pra casa, meu outro vizinho de transporte público assistia, sem fone, um rodízio frenético e infinito de vídeos que iam de pregações a vendedores de curso, passando por memes estridentes, "Parabéns Pra Você" e entusiasmados influencers fingindo que não estão vendendo nada. Tudo diferente. Tudo junto.
Tentei me proteger com meus próprios fones.
Mas proteger, talvez não seja bem a palavra. Era mais como tentar estabelecer limites. Se o barulho é inevitável, que ao menos nos meus ouvidos, seja o que eu escolher.
Nesse mesmo dia, um pouco antes de me enfiar num trem do metrô, entrei na Catedral da Sé. Passo em frente quase todo dia.
Entrei, mas não por devoção. Talvez por necessidade. Me lembrei de experiências anteriores sobre o contraste entre o silêncio dentro da catedral e o barulho fora dela.
Quando atravessei a porta, aconteceu algo que eu não esperava. Ou melhor, esperava. Buscava, até. Mas não com intensidade que aconteceu. O silêncio doeu. Quase como quando a pressão muda num avião e os ouvidos precisam de um momento para se ajustar. Era como se alguém tivesse apertado a tecla mute do mundo.
E permaneci ali parado, tentando me acostumar com aquela ausência.
E então, quase automaticamente, os pensamentos começaram a aparecer. Tarefas que eu havia adiado mentalmente durante o dia. Possíveis direções para assuntos que eu precisava endereçar.
Me lembrei do meu pai, que não está mais aqui e lamentei não poder mais pedir conselhos sobre certos assuntos e nem conversar com ele sobre a copa do mundo. Senti saudades da sua voz e me arrependi das vezes em que acabei dormindo enquanto assistia futebol com ele .
Tive vontade de chorar, mas me controlei e voltei minha atenção para os adornos internos da catedral que, embora não se pareçam em nada, me lembraram de Aleijadinho e sua arte barroca. E senti saudades de alguma cidade histórica de Minas num dia normal. Sem turistas.
Lembrei também do fim de tarde no Chapadão, uma linda falésia em Pipa (RN) e daquele tipo de silêncio que só o vento sabe cantar.
Mas, de repente, começaram a aparecer também os medos. Aqueles que teimam em me visitar quando nada mais está pedindo minha atenção.
Foi quando me levantei e voltei para a rua.
O silêncio não desapareceu. Nós o expulsamos.
E quando ele aparece, muitas vezes somos nós mesmos que vamos embora.
Porque o silêncio não interrompe. Não anuncia. Não vende. Não pede curtida. Não tenta provar que existe e nem demonstrar relevância. Ele simplesmente revela. E revelar, dependendo do que está guardado, pode ser mais difícil de suportar do que qualquer barulho.
Eu saí da Sé quando ele (o silêncio) começou a cumprir o seu papel.
E voltei para casa com o barulho de mais um dia. Só que esse barulho não era só o de mais um dia. Era de dias, semanas, meses, anos.
A Sé me deu dez minutos de silêncio. E guardei esses dez minutos com cuidado.
Em um mundo cheio de ruídos, era tudo que eu tinha.
Obrigado por ler até aqui.
Até a próxima!
Fabior
Até a próxima!
Fabior

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