Allegría
Come un lampo di vita
Allegría
I see a spark of life shining
Há alguns momentos na vida que nos pegam de surpresa. Eles chegam como um clarão repentino: uma viagem com alguém especial, uma noite em volta da fogueira com amigos, o alívio sutil no peito ao concluir algo desejado ou o encantamento profundamente emocional com um espetáculo extremamente bem produzido são alguns exemplos. Por um instante, o mundo ganha cor e o tempo parece desacelerar.
E então, o instante passa.
Se você já sentiu a beleza avassaladora de um momento feliz seguida por uma pontada imediata de nostalgia ou um receio silencioso de que aquele "lampo di vita", aquele "spark of life" nunca mais se repita, você não está sozinho.
Foi sobre isso que estive pensando ao longo dessa semana. Confesso que, ter assistido ao espetáculo Allegria, do Cirque du Soleil e ter ficado com sua música tema no repeat infinito dentro da minha cabeça, talvez tenha contribuído um pouquinho para isso.
Por definição, a alegria, em sua natureza mais pura, muitas vezes se parece com uma faísca: incandescente, vibrante, mas profundamente fugaz. Geralmente é causada por um evento externo específico ou circunstância imediata, que funciona como picos de satisfação que surgem e passam rapidamente.
Nesse caminho, percebi que olhar para essa experiência apenas como uma emoção passageira pode limitar sua verdadeira potência. A alegria talvez não seja apenas um acaso que nos acontece.
Dependendo da cultura e da época a alegria é definida de formas um tanto quando diferentes que vão desde vivacidade, entusiasmo, graça ou presente imerecido ou mesmo um júbilo interno da alma.
Por outro lado, no livro de Eclesiastes encontramos reflexões mais poéticas sobre a brevidade da vida.
Salomão usa a palavra Hevel (frequentemente traduzida como "vapor" ou "faísca de fumaça") para descrever como tudo nesta vida é efêmero. Contudo, em vez de cair no cinismo, a postura sugerida é desfrutar o pão, o vinho e a companhia com gratidão sincera. A alegria aqui é a arte de acolher a faísca do momento sem tentar estocar o vento, só para usar uma citação que boa parte dos brasileiros conhece.
Já no Novo Testamento, essa visão ganha uma dimensão de eternidade. A alegria deixa de ser vista apenas como um reflexo das circunstâncias e passa a ser entendida como uma postura interior, um "fruto do Espírito" (Gálatas 5:22) que pode coexistir com a dor e a saudade.
Mas a beleza está na forma de encarar a própria brevidade dessa faísca.
Para mim, este é o significado que mais ecoa no meu coração:
Se a alegria que experimentamos aqui é passageira, ela não é um fruto do acaso ou um recurso que está se esgotando. Essa faísca é uma amostra grátis da eternidade.
Nessa visão, cada segundo de encanto, cada riso farto e cada sensação de paz plena são pequenos vislumbres de uma realidade maior que nos está reservada.
O instante feliz não morre no passado; ele é um spoiler do futuro.
Assim, retorno ao pensamento que iniciou este texto para tentar concluir toda essa conversa, mas com uma mudança essencial de olhar:
Se as faíscas deste mundo são apenas amostras grátis, a nostalgia deixa de ser o luto e passa a ser a certeza de que a fonte original desse contentamento é eterna.
A vida não é uma contagem regressiva de momentos bons. Novas faíscas ou lampos de vita virão e, com elas, novos tons e novas cores, mas todas apontando para a mesma promessa: a de que a beleza que nos toca hoje por um segundo é a mesma que nos acolherá por inteiro no fim da jornada.
A alegria é, ao mesmo tempo, a visita rápida que nos surpreende no presente e o lembrete silencioso do lar para onde estamos caminhando, que nos ensina a reconhecer no efêmero o gosto do que é eterno.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior
1 Comentários
Adoro sua forma de eternizar os momentos. Para sempre Alegria ❤️
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