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Vivendo, Conhecendo e Aprendendo

Nos últimos dias, aprendi como é estranho sair de casa e viajar 500 km até um lugar que traz um monte de lembranças doloridas. Não que eu tenha feito por vontade própria, como em tantas outras oportunidades. Desta vez foi muito mais por questões familiares mesmo.

Tiradentes, uma cidadezinha simpática do sul de Minas, é assim. Um desses lugares que cativam a gente. Lugar de gente que cativa a gente e lugar de amores relâmpago.

Pela primeira vez, não sei bem o que fazer aqui. Sinto-me meio perdido, deslocado e inquieto. Sinto-me um estranho num lugar que sempre considerei minha segunda casa.

A verdade é que muita coisa passou pela minha cabeça hoje e, enquanto escrevo, escuto o apito da Maria Fumaça anunciando sua partida para São João Del Rei. Uma viagem curta de aproximadamente 16 quilômetros apenas.

Das muitas vezes que estive aqui, esta é a primeira vez que percebo o quanto é fácil se perder no tempo olhando a Maria Fumaça com sua “barulhada” e sua “fumaceira”, tão integrada à paisagem local.

São ruas, casas, estações, praças e muitas igrejas. Tudo no estilo colonial. Muitas edificações construídas ainda pelos escravos e, claro, tudo tombado pelo patrimônio histórico.

Aliás, aprendi também que, de uma forma geral, as cidades históricas são muito parecidas. Sou capaz até de dizer que quem já viu uma, viu todas. O que acaba sendo mais ou menos óbvio. Afinal, são o retrato de um período colonial onde a arquitetura portuguesa era predominante e, para quem está apenas de passagem, sem qualquer envolvimento maior com a cidade, são realmente todas muito parecidas.

Mas as semelhanças acabam no momento em que temos oportunidade de parar e, de alguma forma, fazer parte delas. Só então começamos a perceber que cada uma tem sua história, sua gente, seu charme, seu sotaque e seus segredos.

Mas ontem foi dia de percorrer novos caminhos, cruzar divisas e ver o que há além do horizonte. Eram 6 da manhã. Não consegui mais ficar na cama. O céu estava azul e o tanque cheio. Mais que um convite para visitar lugares e rodar por estradas que não conhecia.

Aprendi que cada dia é um presente, uma vida inteira, uma nova chance e resolvi aproveitar este dia na estrada que, hoje sei, é o lugar onde mais gosto de estar.

Aprendi também que as estradas são muito parecidas com a vida da gente. Existem trechos muito bons e bem sinalizados que tornam a nossa passagem tranquila e sem perigos. Mas também há trechos difíceis, mal sinalizados e repletos de obstáculos onde um pequeno descuido ou imprudência pode nos deixar pelo caminho.

Barroso, Barbacena, Conselheiro Lafaiete, Congonhas, Ouro Branco, Ouro Preto, Mariana, cidades e mais cidades encravadas entre as serras de Minas.

A cada quilômetro percorrido uma imagem diferente pela frente que, segundos depois, desaparece no retrovisor, a menos que fiquemos e nos tornemos parte dela. Aprendi que esta é outra coincidência entre a estrada e a vida.

Aprendi também que o anoitecer na estrada pode ser bem nostálgico. Aos poucos, os faróis começam a iluminar, poucos metros à frente, o asfalto gasto onde a única referência é a (também gasta) faixa amarela dupla que divide as pistas.

De tempos em tempos surge um “trevo” e o acesso para alguma cidadezinha que a gente nunca nem ouviu falar. Muitas delas com apenas algumas poucas luzes amarelas, fracas e tristes. E toda a paisagem, quase sempre formada por serras e montes verdes, se transforma num único contorno negro quase fundido ao céu especialmente estrelado.

Dois dias depois…

Chegou a hora de partir e aprendi que as lembranças vão sempre existir e nos trazer de volta a algum momento de nossas vidas. Afinal de contas, entre os valores cambiantes da vida, as lembranças são as únicas coisas que irão nos restar, já que, em certos momentos, perdemos até mesmo a fé e a esperança.

Tudo muda com o tempo, inclusive algumas de nossas verdades e paradigmas.

Aprendi que algumas coisas parecem ser tão certas e que, às vezes, parecemos estar tão certos que chegamos a acreditar que é só uma questão de tempo até vermos todos os nossos sonhos realizados.

Mas aprendi, também, que é o fogo desse mesmo “tempo”, que se encarrega de consumir os sonhos e as promessas vazias. E quando isso acontece, não há herança senão o que restar de si mesmo.

Aprendi que, apesar de parecer pouco, na maioria dos casos, isto é mais que o suficiente para reconstruir velhos sonhos, encontrar novos rumos e recomeçar.

Deixo Tiradentes sem a menor ideia de quando voltar e, pela primeira vez, sem vontade de voltar, exceto pela importância que algumas pessoas têm na minha vida. Tenho certeza que elas sabem quem são, pois sei que sentem a mesma alegria que eu ao revê-las.

Então, fui me despedir da cidade lá em cima do “alto”, onde está a igrejinha de São Francisco e dei uma última olhada ao redor. De alguma forma, senti que ela (a cidade) me entendeu. Ela sabe que, apesar das lembranças doloridas que me traz, vai sempre ser a minha segunda casa, assim como eu sei que ela vai estar sempre de braços abertos quando eu voltar.

E, por fim, aprendi que outra coincidência entre a estrada e a vida é que o retorno é sempre mais longo, mais demorado, mais cansativo e que a gente não vê a hora de chegar. Talvez porque na ida e durante a viagem, toda a euforia, entusiasmo e empolgação vão consumindo as nossas energias e, quando chega a hora de voltar, só nos resta o cansaço, o desgaste e a vontade de chegar logo. Talvez seja por isso que não temos a mesma paciência que tivemos na ida, para esperar que simplesmente passe.

De qualquer forma, espero poder estar sempre na estrada, visitando, conhecendo, vendo de perto e tocando com as próprias mãos. E se eu tiver direito a um único desejo, espero um dia ter alguém no banco do passageiro para compartilhar todas as experiências dessas estradas.

Alguém que não queira apenas ir, porque a ida é sempre mais fácil e divertida. Mas que esteja lá também na volta, quando o desgaste e o cansaço baterem. Alguém cuja simples presença e companhia seja o suficiente para me ajudar a encarar a volta e finalmente chegar.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior.

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