Caminhar por seis horas e meia não é algo que se pode chamar de "moleza".
Foi o tempo que eu levei para percorrer os 16 quilômetros de ida e volta na popularmente conhecida Estrada Velha de Santos (SP-148).
Sempre tive vontade de conhecer esta estrada. Menos pela música do Roberto Carlos e mais, como já disse em outros textos, porque gosto de caminhar por lugares onde repousa parte da nossa História. Não é o caso de entrar em detalhes aqui.
O local faz parte do Parque Estadual da Serra do Mar, sendo uma área de proteção ambiental, preservando o pouco que ainda resta da nossa Mata Atlântica. O percurso é bem parecido com o que imaginei, mas as curvas são bem piores e o Roberto Carlos teve sorte de não ter se matado lá.
Já dirijo a tempo suficiente para ter a certeza que essa estrada está exatamente na condição em que deveria estar, ou seja, funcionando como Pólo Eco-turístico, permitindo passeios apenas e tão somente à pé. Digo isso pois, pela forma imprudente com que todos dirigimos, certamente haveria mortes lá todo santo dia.
Saí de casa com o tempo nublado. E até uma garoa fina ameaçava estragar meus planos. Mas preferi confiar na previsão de um dia de sol com nuvens e, quando cheguei no parque, já era possível ver vários "pedaços" de céu azul.
Na entrada do parque há um portal onde são confirmados os dados fornecidos na reserva, que deve ser feita com antecedência, por telefone e recolhida a taxa de R$15,00 para a manutenção do parque.
Recebi um crachá verde de número 363 e me dirigi ao estacionamento, à esquerda do portal. A partir daquele ponto, é proibido qualquer tipo de tráfego que não seja à pé, exceção feita, obviamente, aos veículos de vigilância e manutenção do parque.
Enquanto eu me identificava e estacionava o carro, notei que já havia lá dois grandes grupos de pessoas. Formavam círculos e faziam um demorado alongamento. Notei também que a cor do crachá deles era diferente do meu. Era laranja. Provavelmente identificava algum grupo fechado ou excursão. Animados, falavam alto, tiravam fotografias uns dos outros e cada grupo tinha o seu engraçadinho, piadista e palhaço. Sempre há.
Olhei no relógio e eram precisamente 09h10. Preparei a câmera, tranquei o carro e caminhei. Sem aquecer nem alongar, como faziam os outros. Apenas caminhei. Já tinha uma ideia do era caminhar 8km e sabia que descendo não teria problemas em completá-los. Afinal, como dizem os populares: "Pra descer, todo santo ajuda". O que me preocupava eram os mesmos 8km da volta, subindo. Mas cada coisa a seu tempo.
SAIBA MAIS: Estrada Velha de Santos
Ao longo do trajeto há monumentos que foram construídos a mando do então governador Washington Luís para comemorar o Centenário da Independência (1922).
Logo no primeiro quilômetro chegamos ao primeiro monumento. O Pouso Paranapiacaba (km 44). Em Tupi, Paranapiacaba quer dizer "Lugar de onde se vê o mar". Possui painel de azulejos pintados, retratando mapa do Estado de São Paulo e as estradas existente na época. O local era usado como parada para descanso após a subida da serra ou para preparação para descida.
No quilômetro 46, está o Belvedere Circular, que marca o primeiro encontro da Calçada do Lorena com a estrada (ao todo são 3 encontros). Pode-se utilizar a Calçada do Lorena para cortar caminho mas, por se tratar de uma escadaria muito mais íngreme, não é aconselhada para idosos e nem após chuvas.
Um pouco mais à frente, no km 47, está o Rancho da Maioridade. Outro antigo ponto de parada para descanso e reabastecimento. Tem esse nome em homenagem à Estrada da Maioridade que, por sua vez, recebeu o nome em homenagem a maioridade de Dom Pedro II. Um painel de azulejos ilustra a subida da Serra por figuras políticas ilustres do século XIX.
A seguir, no km 47,2 está o Padrão do Lorena, que marca o terceiro e último encontro entre a calçada e a estrada. Seu nome é uma homenagem a Bernardo José Maria de Lorena, que foi governador da capitania de São Paulo. Foi ele quem mandou construir a calçada. O memorial contempla um medalhão em azulejos retratando Bernardo de Lorena. Os painéis de azulejaria laterais ilustram cenas do século XVIII, como tropeiros e mulas carregando mercadorias. O trecho da estrada em frente a esse monumento foi preservada com macadame e é o único trecho da estrada nesta condição.
No km 52, encontra-se o último monumento, já na planície, após o fim da serra. Com o fim da pavimentação, este monumento, que parece uma ponte, foi construído, com asfalto da estrada, para homenageá-la. Não é de fato uma ponte, mas somente as "paredes" da ponte fincadas no chão. O rio que antes passava ali foi desviado para a construção da refinaria em Cubatão.
A estrada também teve outros nomes: Estrada da Maioridade (nome original), Estrada do Vergueiro e Caminho do Mar e, segundo consta, foi a primeira estrada asfaltada da América Latina.
Em todos os monumentos há monitores do parque para auxílio em caso de alguma necessidade ou apenas para informações turísticas. Além dos monumentos, durante a estrada toda, é possível encontrar mirantes de onde é possível ter uma vista bem ampla da região.
A descida é tranquila e pode ser feita por qualquer pessoa. Havia idosos, crianças e, apesar de algumas reclamações de cansaço, todos desceram sem maiores problemas. Mas havia pessoas que pareciam estar indo ao mercado ou à padaria. Simplesmente desceram. Sou capaz de apostar que não se lembram de nada a não ser de que era longe e que cansa muito. Um desperdício.
Completei a descida por volta de 12h20. Desci devagar, fotografando, admirando a paisagem, os monumentos e a natureza. No final da serra havia dois ônibus e duas vans e, conversando com um senhor que também fotografava, descobri que se tratava mesmo de uma excursão. Foi nesse momento que percebi que voltaria sozinho.
Enquanto descansava um pouco, chequei o rendimento dos meus suprimentos: Havia percorrido oito quilômetros em três horas e consumido um sanduíche, uma dessas barrinhas de cereal e meia garrafa d´água. Convenhamos, um bom rendimento.
Pensando na subida, consumi a outra metade da água e verifiquei que me sobrava ainda outro sanduíche, duas barras de cereais, um chocolate, uma garrafa d'água e uma boa dose de coragem.
Podia ter negociado uma carona com o pessoal da excursão, é verdade. Mas eu não queria. Estava me sentindo bem e queria, na verdade, era testar meus limites. Estava ansioso.
Um dos ônibus partiu, reduzindo bastante o número de pessoas. Resolvi que não ficaria lá sozinho olhando todos irem embora. E, sem olhar para o alto da serra, comecei a caminhada de volta exatamente como imaginei, sozinho.
Alguns minutos depois, percebi que a experiência seria outra. Não apenas por causa da subida, obviamente. E comecei a prestar atenção nos barulhos que vinham da mata. Vários tipos de cantos de pássaros, cachoeiras e até o vento sacudindo as árvores. A velha estrada de Santos era minha. Sem risadas, sem gritaria, sem reclamações. Nem mesmo as minhas.
Subi, feliz da vida. Sabia que ficaria cansado, talvez dolorido. Óbvio. Não lembro a última vez que caminhara tanto assim. Mas valia a pena. Era o que eu queria fazer naquele momento. Eu estava exatamente onde queria estar. Parei novamente em todos os mirantes, em todos os monumentos, tirei todas as fotos que eu queria e levei as mesmas três horas que havia levado para descer. Consumi três garrafas d´água na subida, na verdade havia apenas uma garrafa, que enchi nas bicas ao longo do caminho.
Ao longo da subida, houve um momento em que o cansaço bateu forte. Resolvi, então, comprovar as propriedades calóricas/energéticas do chocolate e devorei o meu junto com a barra de cereal que restava. Minutos depois já pude perceber uma certa diferença no organismo, foi como se eu tivesse ingerido uma dose extra de energia. Sensacional.
Completei os 16km com tranquilidade e antes de começar a sentir os efeitos dessa "pequena maratona", dirigi até em casa e ainda vi o Corinthians ganhar do Santos com dois golaços do Ronaldo. Um dia perfeito.
Mas foi aí que o corpo começou a reclamar do esforço. E é aqui que vou encerrar este texto. Afinal de contas, a vida é pra isso mesmo. Em alguns dias estarei pronto pra outra.
PS: Na canção, Robertão diz: "se o amor que eu perdi eu novamente encontrar, na estrada de santos não vou mais passar".
Não se aplica no meu caso. O amor que um dia perdi, eu novamente encontrei. E é este amor que me motiva todos os dias a viajar, conhecer e relembrar tudo depois, como estou fazendo agora.

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