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O bairro da gente



Dia desses, li uma crônica na Veja SP em que o autor retratava as belezas do bairro em que ele vive e o quão prazerosa poderia ser uma caminhada pelo mesmo bairro.

Inspirado pela tal crônica, resolvi escrever e retratar as minhas próprias experiências com meu bairro e creio que boa parte das pessoas se identificarão com pelo menos uma dessas situações. É claro que estou carregando um pouco nas tintas, nas ironias e, principalmente, no mau humor.

Até uns dez anos atrás, eu achava que nosso bairro era uma espécie de porto seguro. Especialmente para alguns como eu que, apesar de algumas mudanças de residência, ainda vivem no mesmo bairro em que nasceram.

Eu achava que não há lugar melhor para caminhar pensando na vida numa dessas noites de calor, para passear de vez em quando com o cachorro, ler um livro sentado sossegado no degrau da calçada na porta de casa e, finalmente, encontrar nos vizinhos aquele rosto amigo que te conhece desde sempre e saber que, no caso de alguma emergência, com certeza você poderá contar com eles.

É triste, porém, reconhecer que a visão romântica descrita acima em nada se assemelha à impressão que tenho sobre meu bairro hoje. Mais triste ainda é reconhecer que os vizinhos de hoje, inconscientemente (ou não), não se respeitam mais. Tenho a impressão que as pessoas vivem um grande sentimento de "Tô na minha casa, faço o que eu quiser e que se danem-se os outros!"

Se você analisar melhor, verá que a maioria das situações descritas aqui se resumem apenas à falta de respeito, de bom senso ou de noção mesmo. Nada além disso e nada mais simples do que isso.

A começar pelo silêncio. Que é um artigo cada vez mais raro hoje em dia.

Você trabalha e/ou estuda a semana inteira. Acorda cedo e chega tarde em casa. Às vezes trabalha ou estuda até de madrugada, é normal. Mas tudo bem. No final de semana você descansa. Dorme até um pouco mais tarde e tira o atraso. Ledo engano. Afinal, você tem um vizinho querido que ás 9h da manhã vai ligar o pagodinho dele e te obrigar a ficar o dia inteiro ouvindo aquele “grave” bacana do som dele ecoando dentro da sua casa num incansável "tummmmmm tum"... "tummmmmmmm tum"... na mesma maldita batida que só varia levemente em relação à velocidade. O "tuuuuuuum tum" pode ficar um pouquinho mais rápido ou mais devagar.

Sendo assim, você resolve se levantar e ir até a feira, que é perto. Para não trazer peso, você acha melhor ir de carro. O problema é que você mal termina de estacionar e já tem que pedir licença para abrir a porta porque tem meia dúzia de moleques querendo uma moeda. Você se livra deles, faz a feira e decide comer o bom e velho pastel. Mas nem isso você consegue fazer em paz porque os mesmos moleques que te pediram para olhar o carro aparecem novamente para te pedir um pastel e, se você negar, eles te lançarão aquele olhar que, em outra circunstância, te deixaria com sentimento de culpa o resto do dia (como pude negar comida à uma criança? Que ser humano desprezível eu sou!!!). É que elas esquecem que, quando te pediram para olhar o carro, já estavam comendo pastel e você viu. E, para encerrar o assunto feira, na hora de ir embora, você percebe que as crianças que estavam lá quando você chegou desapareceram e há outros te cobrando outra moeda por terem vigiado um carro que eles nem sabem qual é.

E quando a sua casa é de esquina? Aquela encruzilhada é o ponto de encontro dos desocupados das redondezas. Parece que todo mundo que não tem o que fazer vai dar uma passada lá para ficar fazendo nada com outros igualmente desprovidos de atividades domésticas. De modo que, sempre que você sai ou chega em casa, tem meia dúzia de sujeitos ali assistindo o cara estranho e metido que não para em casa e nunca fala com ninguém, chegando ou saindo.

Depois do almoço você quer ficar um pouco no quintal, tomando sol e brincando com seu cachorro que fica sozinho a semana inteira. Mas aí, aquele moleque que deve ter uns 13 ou 14 anos, no máximo, e que você não sabe quem é e nem onde mora, afinal, você é um ser anormal que não para em casa e nem se relaciona com a vizinhança, começa com a desgraça de uma moto que deve estar sem a porcaria do escapamento e que a cada dois minutos passa acelerando em frente ao seu portão e você, embora não admita, fica se perguntando quando será que ele vai cair.

Então você resolve entrar para ver o futebolzinho da tarde mas se dá conta que, nos intervalos do moleque da motocicleta quem passa são os funkeiros. Também com seus graves no "talo", fazendo tremer todos os vidros da sua casa.

Acho que dois dos grandes mistérios da humanidade com certeza são: Porque as pessoas gostam tanto de música ruim? E porque elas obrigam todo mundo a ouvir a mesma merda que elas?

Caminhar pelo bairro é outra atividade prazerosa. Se for para dar uma corridinha na venda do seu Mané e comprar algo que você esqueceu de pegar no supermercado, vai ter aquele cachorro chato que vive solto pela rua, que não vai com a sua cara e, sempre que você passa, ele fica latindo ameaçando correr atrás de você ou te morder o tornozelo. E você fica com vontade de vir com um lança-chamas na próxima vez, só para vê-lo correr para longe latindo e pegando fogo.

O mesmo acontece quando você tenta caminhar com o seu próprio cachorro, que parece ser o único no mundo que anda na guia e é criado dentro do quintal. Sim, porque a cada 50 metros aparece, de onde você menos espera, algum outro cachorro latindo furiosamente, correndo atrás de vocês, que só estão ali dando uma voltinha para relaxar. Então, você já começa a se preocupar se algum pitbull aparecerá de repente, saltando um muro de cinco metros de altura para massacrá-los e tenta imaginar o que você poderia fazer se isso realmente acontecesse, quais seriam suas chances de defesa ou se você e seu cachorro simplesmente acabariam afogados no próprio sangue. 

E o passeio que deveria ser relaxante, se torna uma tensa aventura. Então, é melhor ficar em casa mesmo.

Mas caminhar sem o cachorro naquelas noites de calor é diferente. É bem mais tranquilo, é verdade. Mas só até umas 20hs. Depois disso você já prefere não arriscar, só no caso de alguma emergência. Para esses casos, existem os guardas noturnos. Aqueles que ficam apitando e andando para cima e para baixo naquela moto velha e que você sempre se pergunta como será que ele reagiria num caso de real necessidade. Ele diz que você pode ligar a qualquer hora que ele vai até a farmácia para você. Que você pode ligar quando estiver chegando ou saindo fora de hora, que ele vem acompanhar e etc. Mas que você vive dando uma desculpa para não pagar porque tem medo que, se um dia você resolver cancelar o serviço, ele mande assaltar a sua casa ou pior. Vai saber...

Não sei se estou esquecendo alguma coisa... Ah, sim, quase me esqueci. moro em frente a uma UBS (o famoso postinho de saúde). Não são poucas as vezes em que estacionam em frente a minha garagem e eu tenho que ficar indo lá para perguntar se aquele carro bonito parado ali é de alguém. 

Se você não se identifica com pelo menos uma dessas situações, devo dizer que você é um privilegiado e eu te invejo.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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