A imagem que chocou o mundo esta semana é devastadora sob todos os aspectos. Seu impacto me deixou acordado boa parte desta madrugada e me fez recorrer à uma velha válvula de escape. Escrever. Numa inútil tentativa de traduzir em palavras um sentimento que não pode ser descrito a respeito de um fato igualmente sem explicação.
É uma imagem que deveria acender uma luz de alerta em toda a humanidade, principalmente nos “grandes líderes” mundiais, pois este é o alto preço que está sendo pago todos dias, em todos os lugares, incluindo nossos bairros e as ruas de nossas casas, por toda sorte de crueldade gerada pela ganância, pelo fanatismo e pela intolerância.
O ano é 2015. Vivemos o ápice da evolução tecnológica. Mas o que dizer da evolução do ser humano como espécie inteligente? Será que aconteceu de fato? Quando faço uma breve reflexão sobre alguns momentos cruciais da História e, ao mesmo tempo, vejo as coisas que estão acontecendo hoje, não tenho dúvidas em dizer que NÃO.
E é somente olhando para a História que podemos constatar que, não importa o período histórico, o regime governamental, o nível intelectual ou condição social, desde Gênesis, o Homem continua o mesmo! Afinal, continua cometendo as mesmas barbáries. Continua sendo incapaz de respeitar o semelhante, continua se corrompendo e enriquecendo à custa da miséria alheia e, sobretudo, continua matando inocentes.
Eu sei que você dirá que o homem já fez coisas grandiosas que ajudaram a melhorar a vida das pessoas. E é verdade. Mas não se engane. Nunca foi esse o objetivo principal. O investimento por trás de toda a evolução e de todas as grandes descobertas feitas pelo Homem, desde a penicilina até o pouso de uma sonda espacial num cometa, tem como objetivos primários o dinheiro e o poder. Os benefícios até chegam às pessoas, mas apenas como consequência.
Se você parar para pensar, vai perceber que somente aqueles que têm algum poder aquisitivo é que têm acesso a esses avanços.
Se o principal objetivo do homem realmente fosse a melhorar a vida de sua espécie, não haveria tantas pessoas vivendo em situação de pobreza extrema em países de baixa renda. Estima-se que, todos os anos, oito milhões de pessoas morram no mundo em consequência da miséria. Milhares delas provocadas pela fome e por doenças como malária, tuberculose, diarreia e AIDS. Enquanto isso, também estima-se que o governo americano gaste 25% de seu orçamento em atividades militares e apenas 1% com ajuda internacional.
Tenho certeza que toda a tecnologia existente no mundo hoje poderia ajudar e muito o desenvolvimento, produção e distribuição de alimentos e suplementos específicos que acabariam facilmente com a fome e a desnutrição. Mas este é um investimento que não dá lucro e, portanto, não haverá quem o faça.
Se o Homem realmente quisesse melhorar a vida de seu semelhante, não haveria grupos radicais como o Estado Islâmico causando instabilidade e terror em vários países do oriente médio, principalmente Síria e Iraque, causando a imigração de milhares de pessoas desses países em busca de refúgio em países europeus, submetendo-os à todo tipo de risco, dificuldade e humilhações, apenas para fugir da violência desses extremistas, radicais e fanáticos.
Então, esta imagem representa muito mais do que a vítima de mais uma guerra sem sentido. Representa a infância interrompida de milhares de crianças no Brasil e mundo afora. Representa toda a nossa incapacidade de convivência, de respeito ao próximo e de estabelecer políticas que valorizem a vida. Mas representa também uma triste realidade que insiste em dizer NÃO para a esperança de um futuro melhor.
Este é um texto pesado, como é pesada a imagem que o ilustra e que infelizmente será esquecida na mesma velocidade em que ganhou os principais veículos de notícias do mundo. Seu nome era Aylan Kurdi (foto por Nilufer Demir) e ele tinha apenas 3 anos. Sua mãe e sua irmã morreram no mesmo dia e nas mesmas circunstâncias.
Em dias como este, além de ficar chocado com a morte estúpida de uma criança, símbolo maior de tantos outros inocentes, o Homem, como espécie, deveria refletir e lamentar sua pequenez e seu retumbante fracasso como ser racional que deveria ser.
PS: Há um texto conhecido como O Paradoxo de Nosso Tempo. Muito contundente e apropriado para este momento atual. Embora atribuído à George Carlin, o verdadeiro autor é o pastor americano Bob Moorehead.
“O paradoxo de nosso tempo na história é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos; autoestradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; gastamos mais, mas temos menos; compramos mais, mas desfrutamos menos.
Temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; mais graus acadêmicos, mas menos bom senso; mais conhecimento e menos poder de julgamento; mais proficiência, porém mais problemas; mais medicina, mas menos saúde.
Dirigimos rápido demais e nos irritamos muito facilmente, ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, lemos muito pouco, ficamos tempo demais diante da TV e raramente oramos.
Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita frequência.
Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida. Adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma. Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planejamos mais, mas realizamos menos. Aprendemos a correr contra o tempo, mas não a esperar com paciência.
Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral. Construímos mais computadores e armazenamos mais informações do que nunca, mas nos comunicamos menos.
Tivemos avanços na quantidade, mas não em qualidade. Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta; de homens altos e caráter baixo; lucros expressivos, mas relacionamentos rasos. Temos mais lazer, mas menos diversão; maior variedade de tipos de comida, mas menos nutrição.
São dias de duas fontes de renda, mas de mais divórcios; de residências belas, mas lares despedaçados.
São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis e moralidade também descartável. Vivemos a era das rapidinhas e das pílulas que fazem de tudo; alegrar, aquietar, matar…”
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior


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