Barra Grande, 23-28 de Novembro 2015.
Esta viagem começou numa cinzenta manhã de segunda-feira. Chegamos no aeroporto de Congonhas, São Paulo, com tempo feio, céu escuro e foi assim que embarcamos com destino a Ilhéus, na Bahia. Felizmente chegamos lá com tempo bom e muito calor, como era de se esperar.
Nosso destino final, a Península de Maraú, fica numa região ao sul da Bahia conhecida como Costa do Dendê, entre Morro de São Paulo e Itacaré e distante 125 km de Ilhéus.
Sem perder tempo, caímos na estrada em busca do nosso pequeno pedaço de paraíso com mais de 40 km de praias praticamente desertas o ano todo. Isto porque, pelo que pesquisamos, mesmo no verão, quando as pousadas ficam lotadas, as praias parecem vazias porque os turistas se dispersam pela vasta costa coberta de coqueirais.
Antes de deixar o aeroporto, pedi ao rapaz da locadora de carros uma sugestão de parada para almoço no caminho e ele me sugeriu a empadaria e restaurante Cabana da Empada, mais ou menos trinta minutos de Ilhéus, mais especificamente no km 28 da rodovia Ilhéus / Itacaré. E foi lá mesmo que paramos para experimentar a especialidade da casa: Empadas.
O estabelecimento possui ambientes separados para o restaurante e para a empadaria. O primeiro é bonito e possui pratos interessantes no cardápio, mas optamos pela empada mesmo, nossa proposta desde o princípio. Super aprovada, diga-se de passagem!
Se, por acaso, você estiver de bobeira na BA 001, perto de Ilhéus, dê uma passadinha na Cabana da Empada para fazer uma boquinha.
De barriga cheia, seguimos viagem.
Num dado momento, percebi que o mapa do meu GPS estava deslocado em relação à minha posição real. Esse fato somado à minha ligeira falta de atenção, começaram a me causar problemas. Passei direto pelo acesso para Camamu/Maraú e fui parar no centro de Itacaré. Pedi informação, voltei, achei o acesso e continuei a caminho de Maraú.
A partir daí, deixamos a BA 001 e entramos no trecho final da BR 030, que ainda é de terra. Nos contatos com as pousadas e nos comentários dos sites de turismo, as recomendações eram as piores. Dava impressão que só era possível chegar lá utilizando um veículo lunar ou aquela sonda Curiosity, que está explorando Marte.
Por outro lado, li uma reportagem que dizia que o governo local estava recuperando a estrada de Maraú em função do crescimento do turismo local e foi nisto que apostei. De fato, pelo menos na ida, a estrada, embora fosse de terra, estava bem “dura”. Não foi muito confortável, é verdade, mas foi possível trafegar sem maiores dificuldades.
Ainda com problemas no GPS, também passei direto pelo acesso para a praia de Taipú de Fora e quase fui parar em Barra Grande. Desconfiado, pedi informação e tive que voltar outra vez. À essa altura, eu já esperava ver placas indicativas da pousada mas não foi bem assim. Mesmo tendo achado o acesso para Taipú de Fora, passei reto de novo pela pousada e fui parar numa outra, chamada Recanto dos Corais. Essa sucessão de erros já começava a me irritar porque, depois de sair da BR 030 (a estrada de terra ruim que termina em Barra Grande), os acessos até Taipú de Fora começam a ficar um pouco mais complicados.
Devido à proximidade com o mar, há vários trechos cheios de areia fofa onde um vacilo pode ser suficiente para atolar o carro. Felizmente, com a ajuda do rapaz da pousada que mencionei à pouco, consegui chegar ao meu destino final, a pousada Encanto da Lua.
No melhor estilo pé na areia, a pousada Encanto da Lua é super organizada, limpa e bem cuidada. Possui quartos confortáveis e espaçosos e a diária inclui café da manhã, jantar e internet em todas as áreas da pousada. O dono, Goichi, está sempre atento à todos os detalhes.
O nome da pousada se deve ao fato de que nas noites de lua cheia, esta surge bem em frente a pousada, refletindo no mar e proporcionando um espetáculo realmente encantador.
A praia da pousada, Taipú de Fora, possui mais de 7 km de extensão, coqueiros, recifes, areia clara e já foi considerada a sexta praia mais bonita do Brasil pelo Guia Quatro Rodas. Suas imensas piscinas naturais, que se formam na maré baixa entre os recifes de corais, possuem águas cristalinas e cheias de peixes e são ideais para o mergulho.
Nossa estadia foi planejada para coincidir com o período de lua cheia pois, é justamente nesse período, que a maré está mais seca e os corais ficam mais expostos.
A verdade é que, tanto a pousada, quanto a praia, fizeram toda a dificuldade do caminho valer a pena.
No segundo dia, logo após o café da manhã, fomos conhecer as piscinas naturais que mencionei antes. Depois de aproveitar bastante, fizemos uma longa caminhada pela praia.
Durante a tarde, descansamos, almoçamos na pousada mesmo e fizemos algumas fotos. Já no finalzinho da tarde, até pensamos na possibilidade de visitar a vila, Barra Grande, mas as dificuldades nos acessos para a pousada eliminaram qualquer possibilidade de sair e se aventurar por lá durante à noite.
Para o terceiro dia, reservamos um quadriciclo, fornecido pela própria pousada juntamente com um mapa, contendo os principais pontos de interesse a serem visitados nos arredores. O Vinícius, que é outro funcionário da pousada, ficou responsável pelas explicações sobre como pilotar o quadriciclo com segurança, pela explicação do mapa, do roteiro e também da sequência em que os pontos de interesse deveriam ser visitados. Tudo isso em menos de cinco minutos.
Nos dois primeiros pontos do roteiro tive dificuldades para ligar o quadriciclo novamente. É que eu me esquecia de colocar o câmbio na posição “Neutro” antes de desligá-lo. Quem mandou não prestar atenção na explicação do Vinícius? Mas depois entendi o mecanismo e não tive mais problemas.
Com relação ao roteiro e aos pontos de interesse procuramos segui-lo à risca, conforme descrito abaixo:
– Farol de Taipú – É um bom ponto de interesse e proporciona uma bela vista em 360 graus da região. Gosto bastante de faróis, não sei explicar o porque mas, este farol em si, é quadrado, bem rudimentar e não muito atraente. Eu particularmente não curti. Prefiro aqueles redondos, mais tradicionais e com cara de farol mesmo.
– Lagoa / Praia do Cassange – Acesso difícil para carros comuns mas tranquilo para quadriciclos. O lugar é espetacular. Parece um Oásis. Há uma lagoa imensa com cor de Coca Cola, separada do mar por uma faixa de terra de cerca de duzentos metros. O local possui bar, banheiro e é uma ótima opção, tanto para quem gosta de água salgada, como de água doce.
– Praia de Saquaíra – Esta praia tem sua orla um pouco afetada pela erosão marinha chegando até a ameaçar alguns imóveis, mas a praia é tão vazia, bonita e azul quanto as demais.
– Praia de Algodões – Para mim foi o ponto alto do roteiro. Uma praia sensacional e praticamente deserta. Possui alguns bares onde qualquer sinal de luxo passa longe e foi lá mesmo que aproveitamos para descansar (sozinhos) debaixo da sombra de um coqueiro.
– Lagoa Azul – Já no caminho de volta do passeio. Um pouco mais movimentada, com vários veículos de agências de passeios estacionados em frente e gente na água, que é cristalina, morna e super convidativa. Há também um barzinho improvisado instalado ao lado da lagoa.
– Ponta do Mutá – Antes deste, que era o último ponto do nosso roteiro, onde deveríamos finalizar o dia observando um belo pôr do sol, havia a opção de ir até Barra Grande para o almoço, mas percebemos que na Ponta do Mutá também tinha boa infra estrutura e resolvemos pular Barra Grande e ir direto para lá, passar o restante da tarde no Macunaíma Restaurante e Lounge. Boa comida, bom ambiente e bom atendimento. Tudo isso com o pé na areia.
Infelizmente não rolou o pôr do sol porque o céu acabou ficando um pouco encoberto no fim da tarde.
No quarto dia, logo após o café da manhã, saímos para as piscinas naturais, onde ficamos a manhã toda. À tarde, finalmente fomos conhecer Barra Grande e almoçar. Encontramos um dos restaurantes super recomendados de lá, o Donanna. Pedimos moqueca de camarão com arroz, pirão, farofa e salada. Simplesmente espetacular. De sobremesa, ficamos com o pudim de leite e balinhas de coco.
Depois do almoço passeamos pela pracinha e o mini centrinho. Ruas de terra e tudo super rústico e simples. Mas voltamos cedo para a pousada pois o receio de que o acesso complicado somado à falta de iluminação pudesse causar dificuldades.
Acordei na madrugada do quinto dia com o barulho da chuva torrencial que caía sobre Maraú e percebi que não havia energia elétrica também. Imediatamente meus pensamentos começaram a me incomodar sobre como estaria a estrada no dia da volta. Por causa disso, não consegui dormir direito o resto da madrugada.
Quando amanheceu, a chuva diminuiu e virou uma garoa intermitente, mas permanecemos sem energia elétrica até por volta de 13hs. Foi neste momento que resolvemos sair para almoçar no Bar das Meninas, outro point conhecido na região.
Como a experiência no Donanna havia sido muito boa, acabamos repetindo a dose pedindo a Moqueca de Filé de Peixe com Camarão, acompanhado de pirão, arroz branco e farofa de manteiga. É muito boa, mas perde para a Donanna, principalmente o pirão. O atendimento é bom e o preço é justo em se tratando de um restaurante à beira-mar.
Depois do almoço, o tempo finalmente abriu e resolvemos arriscar ir até Barra Grande de novo. Mesmo sabendo que tinha chovido a noite toda e que a estrada poderia estar um pouco mais complicada. São apenas sete quilômetros entre Taipú de Fora e Barra Grande, mas foi uma aventura chegar até lá com todo aquele barro.
Quando chegamos, a vila estava pior do que a própria estrada. Não havia sequer um lugar para parar o carro que não fosse dentro da lama. Acabamos desistindo e voltando para a pousada sem nem parar na vila. O receio de a chuva voltar e nos deixar presos lá foi maior.
O sexto dia chegou. E com ele, a hora de voltar para casa.
Acordamos cedo, arrumamos as malas e fomos tomar o café da manhã. Havia chovido novamente durante a noite e continuava garoando pela manhã. Com isso, minhas preocupações sobre as condições da estrada só aumentavam.
Não sem motivo. Havia chovido bastante nos últimos dois dias e o veículo que eu tinha alugado não havia sido projetado pela NASA e nem era um 4×4. E eu temia ficar preso em algum lugar dos 40km de estrada de terra que precisávamos percorrer até Itacaré, onde começa o asfalto e acabar perdendo o voo.
Com isso em mente, saímos de Maraú com bastante antecedência e encontramos uma estrada que, seca já não era boa, realmente em péssimas condições. As máquinas que faziam o trabalho de manutenção da estrada transformaram vários trechos em um completo lamaçal. Felizmente não havia nenhum ponto intransitável.
Mas a experiência tinha que ser completa. E trafegar por uma estrada naquelas condições era parte da aventura. Apesar de tudo, eu seguia satisfeito até perceber que a experiência não estaria completa se não estourasse um pneu e eu tivesse que trocá-lo na chuva e na lama. E foi exatamente isso que aconteceu.
Felizmente, uma boa alma parou para me ajudar. Caso contrário, eu teria saído de lá parecendo um catador de siri no mangue. Mesmo com ajuda, saí de lá sujo. E puto. Mais sujo do que puto. Sujo o suficiente para ser obrigado a parar de novo na Cabana na Empada para trocar de roupa antes de embarcar e comer outra empada como despedida de Ilhéus, claro.
A experiência na Península de Maraú foi sensacional e o lugar merece todos os elogios. As “dificuldades” do caminho fazem parte para aqueles que, como nós, buscam sossego, praias tranquilas e alternativas fora do circuito urbano.
No entanto, é preciso disposição para superar essas dificuldades. É graças a elas que esses lugares permanecem tranquilos, limpos e paradisíacos.
É como diz a bíblia:
“Porque estreita é a porta e difícil o caminho que conduz à vida, apenas uns poucos encontram esse caminho!”– Mateus 7:14
Agora é hora de procurar a lista atualizada das praias mais bonitas do Brasil e escolher o próxima a ser riscada.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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