Há bastante tempo ouço falar sobre a Divina Comédia, obra literária de Dante Alighieri. Acho que desde o Filme O Inferno de Dante (1997), clássico das tardes de domingo na TV aberta, que pouco ou nada tem a ver com o livro em si e cuja existência só descobri muito tempo depois.
Descobri também que ler a “Divina Comédia” não é uma tarefa fácil. Muito pelo contrário. É uma leitura desafiadora, especialmente para nós, leitores modernos, por várias razões:
Vocabulário Arcaico: A obra foi escrita no século XIV, então o vocabulário e a linguagem podem ser muito diferentes do italiano (idioma original) moderno ou do português que falamos atualmente.
“DA nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
3 Tendo perdido a verdadeira estrada.
Dizer qual era é cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
6 Que a memória a relembra inda cuidosa.
Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
9 De outras cousas que vi, direi verdade.
Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
12 Quando hei o bom caminho abandonado.
Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
15 Que pavor tão profundo me causara.”
Referências Históricas e Mitológicas: Dante faz muitas referências a figuras históricas, mitológicas, teológicas e literárias que eram bem conhecidas em sua época, mas podem ser obscuras e até desconhecidas hoje em dia.
Simbologia e Alegoria: A obra é rica em simbolismos e alegorias, o que pode exigir uma leitura atenta e interpretativa. Cada personagem, evento e local geralmente possui um significado mais profundo que precisa ser decifrado.
Estrutura Poética: “A Divina Comédia” é escrita em tercetos encadeados (terza rima), um esquema de rima que pode ser difícil de seguir, especialmente em traduções.
Conteúdo Filosófico e Teológico: A obra aborda temas filosóficos e teológicos complexos que podem não ser familiares a todos os leitores.
É dividida em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso que, para Dante, são divididos em círculos. Cada parte narra a jornada do autor por esses três reinos da vida após a morte, guiado pelo poeta romano Virgílio no Inferno e no Purgatório, e por Beatriz, a personificação do amor espiritual, no Paraíso. Como já mencionado, a obra é rica em simbolismo, teologia e filosofia e reflete as crenças e a estrutura social da época de Dante.
Apesar de todas essas dificuldades, A Divina Comédia é também uma jornada profunda e transformadora, tanto para a mente quanto para o espírito. Um mergulho na alma humana, explorando suas fraquezas, esperanças e busca por redenção.
Já nas primeiras linhas, você é puxado para dentro da selva escura onde Dante se encontra perdido. Esse início sombrio pode refletir nossas próprias lutas pessoais, momentos em que nos sentimos perdidos ou sem direção. Conforme avançamos, acompanhamos Dante e seu guia Virgílio em uma descida pelos círculos do Inferno, onde cada etapa revela aspectos sombrios da natureza humana.
A descrição dos pecados e suas punições é impressionante, não apenas pela riqueza dos detalhes, mas pelo modo como nos força a confrontar nossas próprias imperfeições. O Inferno de Dante não é apenas um lugar de tormento físico, mas um espelho das consequências espirituais e emocionais dos nossos atos. A cada círculo, você sente o peso da justiça divina, mas também a tristeza pelas almas condenadas, muitas vezes vítimas de suas próprias falhas humanas.
Neste texto quero me ater ao inferno, mais especificamente ao nono círculo. Mas não sem antes fazer um breve resumo dos outros oito círculos.
Os Nove Círculos do Inferno
Dante descreve cada círculo representando um tipo específico de pecado e a punição correspondente. A viagem de Dante começa na selva escura e desce até o centro da Terra, onde está Lúcifer.
Primeiro Círculo (Limbo): Este é o círculo dos não batizados e dos virtuosos pagãos que não conheceram Cristo. Eles não sofrem torturas físicas, mas vivem em um estado de desejo não realizado por Deus.
Segundo Círculo (Luxúria): Os luxuriosos são castigados sendo eternamente soprados por uma tempestade violenta, sem nunca encontrar paz ou descanso.
Terceiro Círculo (Gula): Os gulosos estão condenados a deitar em lama suja e são constantemente torturados por uma chuva pesada e neve, simbolizando seu excessivo consumo.
Quarto Círculo (Avarícia e Prodigalidade): Os avarentos e os pródigos são punidos empurrando enormes pesos uns contra os outros, representando suas vidas de desperdício e ganância.
Quinto Círculo (Ira e Preguiça): Os iracundos lutam entre si na superfície do rio Estige, enquanto os preguiçosos ficam submersos nas profundezas do rio, sufocando.
Sexto Círculo (Heresia): Os hereges estão presos em túmulos em chamas, representando seu afastamento das doutrinas da Igreja.
Sétimo Círculo (Violência): Este círculo é dividido em três anéis:
– Violência contra o próximo: Assassinos e tiranos são imersos em um rio de sangue fervente.
– Violência contra si mesmo (suicídio): Os suicidas são transformados em árvores e arbustos que sangram quando quebrados ou feridos.
– Violência contra Deus, natureza e arte: Blasfemadores, sodomitas e usurários (agiotas) são punidos de diferentes maneiras, como chuva de fogo e desertos de areia ardente.
Oitavo Círculo (Fraude): Conhecido como Malebolge, este círculo é dividido em dez valas, cada uma punindo diferentes tipos de fraude:
– Sedutores: Corridos por demônios com chicotes.
– Bajuladores: Mergulhados em excrementos humanos.
– Simoníacos (vendem favores divinos, bênçãos, cargos eclesiásticos, prosperidade material, bens espirituais, coisas sagradas, etc. em troca de dinheiro): Enterrados de cabeça para baixo com as pernas em chamas.
– Adivinhos: Têm as cabeças torcidas para trás.
– Corruptos: Submersos em piche fervente.
– Hipócritas: Usam mantos pesados de chumbo.
– Ladrões: Mordidos por cobras e transformados em répteis.
– Conselheiros fraudulentos: Envoltos em chamas.
– Semeadores de discórdia: Mutilados repetidamente por demônios.
– Falsificadores: Sofrem de doenças terríveis.
Nono Círculo (Traição): O mais profundo círculo é reservado para os traidores. É dividido em quatro regiões, cada uma punindo diferentes formas de traição, todas congeladas no lago Cocite:
“Os dois Poetas se encontram no círculo, em cujo pavimento de duríssimo gelo estão presos os traidores. O círculo é dividido em quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irmão, estão os traidores do próprio sangue; na Antenora, de Antenor, troiano que ajudou os Gregos a conquistar Tróia, os traidores da pátria e do próprio partido; na Ptoloméia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu, os traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores dos benfeitores e dos seus senhores. Dante fala com vários danados, enquanto atravessam o gelo procedendo para o centro.“
Dante coloca o nono círculo no coração do inferno. Este é o círculo mais baixo e mais terrível, simbolizando a profundidade da degradação moral. Lá, a atmosfera é especialmente gelada e desoladora. É impossível não sentir o frio do gelo do lago Cocite e o peso da traição que condena essas almas.
No centro do nono círculo está Lúcifer, o traidor supremo, que está preso no gelo até a cintura. Ele possui três faces, cada uma mastigando eternamente um dos três maiores traidores da história humana, segundo Dante: Judas Iscariotes, que traiu Jesus; Brutus e Cassius, que traíram Júlio César. A posição de Lúcifer no centro do gelo representa a traição máxima contra Deus.
E aquilo que inicialmente foi motivo de certa surpresa, afinal, a primeira vista, há tantos pecados ou crimes mais graves que a traição, logo se tornou óbvio e claro como sol. Simplesmente porque vem de quem menos se espera e se vale da covardia para ir contra princípios fundamentais e nobres como confiança, respeito, compromisso e lealdade para, assim, acessar e corromper facilmente tesouros protegidos a sete chaves contra quaisquer outros estranhos .
Meu interesse e curiosidade foram maiores por este círculo e me levaram a algumas reflexões.
A traição é um dos pecados mais dolorosos e difíceis de perdoar porque envolve uma violação profunda da confiança. Quando alguém nos trai, não apenas sofremos a perda imediata ou o dano causado pela ação, mas também a dor emocional, psicológica e duradoura de ter nossa confiança quebrada. A sensação de traição pode nos deixar desorientados e vulneráveis, muitas vezes provocando um desejo intenso por justiça ou vingança.
Dante, ao colocar os traidores no ponto mais baixo do Inferno, está refletindo sobre a gravidade moral da traição. Ele nos lembra que a traição, mais do que outros pecados, destrói a nossa capacidade de confiar nos outros, que é a base das relações humanas. O sofrimento eterno dos traidores no nono círculo serve como uma poderosa metáfora para a dor duradoura que a traição inflige às vítimas.
Jeremias 12:6 diz: Até os seus irmãos, gente da sua própria família, são traidores. Todos eles criticam você pelas costas. Não confie neles, ainda que venham com conversa de amigo.
Mas a jornada de Dante continua e ele avança para o Purgatório e finalmente para o Paraíso, quando a luz e a esperança começam a surgir. A escuridão do Inferno dá lugar à purificação e à união com o divino. E a obra completa não é apenas uma narrativa de punição e sofrimento, mas uma mensagem de esperança e transformação, mostrando que, apesar de nossos erros, a redenção e a felicidade eterna estão ao nosso alcance.
Ler a “Divina Comédia” é mais do que testemunhar a jornada de Dante. É também embarcar em sua própria jornada interior. Cada verso é uma reflexão sobre a moralidade, a justiça e a busca pela redenção. As descrições sempre vívidas, a rica simbologia e a profunda humanidade da obra tornam impossível não se emocionar e refletir sobre sua própria vida e escolhas.
Mais que um clássico literário; “A Divina Comédia” é uma experiência que toca profundamente o coração e a alma, deixando uma marca duradoura em sua visão sobre a vida e a espiritualidade.
Observação: O poema chama-se “Comédia” não por ser engraçado mas porque termina bem (no Paraíso). Era esse o sentido original da palavra Comédia, em contraste com a Tragédia, que terminava, em princípio, mal para os personagens.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima
Fabior

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