Colecionava palavras como quem guarda vinis antigos: não pelo valor, mas pelo som que fazem quando tocam. Entre uma crônica e outra, brincava de retratar absurdos do cotidiano com humor tão sutil que você ria e só depois percebia que estava rindo da própria vida.
Fã de boas histórias, de ideias que caminham devagar e de tecnologia que não atrapalha o silêncio. Mantinha o Kindle ao lado dos livros, como quem conversa com o novo sem trair o antigo. Achava graça na burocracia corporativa, desde que pudesse apenas observá-la da arquibancada da TI.
Tinha banda. Claro que tinha banda. Não dessas que fazem turnê, mas daquelas que existem em tardes esporádicas de domingo ou entre mensagens trocadas no grupo. Gostava de fazer música com o mesmo espírito com que escrevia: pra deixar algo no mundo que fosse mais bonito do que o ruído. Ou pelo menos mais sincero.
Falava com Deus. Às vezes em frases curtas, às vezes em longos monólogos tentando explicar como sentia que absolutamente tudo em sua vida estava errado e como havia descoberto da pior forma que paz de espirito não tem preço. Acreditava em milagres discretos, desses que chegam na forma de força ou silêncio e sabia que, às vezes, o maior feito do dia era simplesmente continuar.
Assim era ele. Feito de pausas bem colocadas, ironias educadas e verdades que preferia sugerir em vez de gritar. Tinha o hábito de deixar o mundo passar por ele como quem escuta uma boa música: sem interromper, sem antecipar o refrão.
Mas algo mudou. Ou começou a mudar — da forma sutil, como se anunciam as tempestades de alma: primeiro vem o vento, depois o pressentimento e só muito depois a chuva.
Já não bastava apenas observar. De uns tempos pra cá, o personagem que sempre preferiu os bastidores começou a escutar um chamado vindo de dentro. Um incômodo estranho, feito oração sem palavras, como se Deus tivesse puxado uma cadeira à sua frente e dito: "Vamos conversar sobre o que você tem guardado aí, no lugar onde ninguém vê."
E aquele alguém que sempre soube nomear os absurdos do mundo, de repente se vê tentando apenas compreender seus próprios absurdos. As crônicas, que antes terminavam com sorrisos cúmplices, começaram a deixar interrogações no ar — e, de repente, ele entendeu que não precisava e nem estava mais disposto a saber todas as respostas.
Sim, algo nele está mudando. Talvez não seja visível ainda, mas está ali: no modo como desacelera o passo, no cuidado com os silêncios, na forma como olha para dentro como quem procura por um mapa antigo esquecido em si mesmo.
Quem sairá do outro lado? Quem sabe… Talvez a resposta venha em forma de novas canções… ou de preces sussurradas no escuro. Talvez uma nova criatura, de coração renovado. Quem sabe até um recomeço… desses que se escrevem à mão, no tempo exato que só a fé entende.
Mas uma certeza tranquila repousa nos ombros desse homem em transição: Aquele que começou a boa obra, é fiel e justo para completá-la. Mesmo que o processo pareça lento, mesmo que as páginas virem com o vento — Ele escreve tudo com tinta eterna e, apesar das pausas mudas das reticencias da vida, não haverá vírgula solta que escape do Seu cuidado.
Fabior

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