Quando somos crianças, o mundo parece feito de cores recém-saídas de um tubo de tinta. Tudo vibra, tudo chama, tudo é convite: ao riso, ao devaneio e à descoberta. A vida pulsa, impulsionada pela curiosidade dos sonhos e pelas expectativas que nos movem.
Lembro de encontrar um brinquedo jogado no meio-fio da calçada. Para os olhos adultos que me cercavam, era só um pedaço de plástico gasto, quebrado, sujo, pronto para o lixo. Mas para mim, era um tesouro. Tinha história. Tinha promessa. Bastava segurá-lo nas mãos para que ele ganhasse vida nova, com o tipo de brilho que só a imaginação infantil sabe proporcionar.
A beleza, naquele tempo, não morava na perfeição. Morava no potencial.
Aquele carrinho sem uma roda podia ser o mais rápido da cidade imaginária. Um botão perdido podia virar moeda de um reino secreto. E os nossos sonhos eram assim... elásticos, resilientes, capazes de encontrar cores e magia nas coisas mais ordinárias e pintados com uma liberdade que a vida adulta, um dia, trataria de dobrar e encaixotar.
Mas os anos passam. Sem que a gente perceba, a poeira fina e invisível do tempo vai se assentando sobre tudo. E essa poeira parece vir acompanhada de uma série de "despedidas" silenciosas.
Primeiro, aqueles brinquedos, antes tão preciosos, depois guardados e esquecidos em caixas, no fundo de algum armário ou gaveta, até serem doados ou tristemente descartados.
Com eles, parece que algo mais se vai. Talvez seja neste exato momento que a vastidão do mundo comece a diminuir e as cores, que antes explodiam em cada esquina, comecem a desvanecer gradualmente, substituídas por tons mais sóbrios, mais "reais".
Se eu tivesse que pontuar esse momento em um dia da minha vida, talvez seja o dia em que eu vendi minha bicicleta Monark BMX Pantera, para comprar os novos livros de mais um ano letivo.
E, assim, sem alarde, começamos a nos despedir das versões mais coloridas de nós mesmos.
À medida que a vida adulta impõe suas lentes pragmáticas, a espontaneidade dá lugar à cautela, a fantasia cede espaço à "realidade". O encanto de um brinquedo achado na rua dá lugar à busca pelo "novo" e "perfeito". E as rugas no rosto não são apenas marcas do tempo, mas, às vezes, reflexos de um cansaço que insiste em nublar a visão.
E não para por aí. Primeiro, descartamos ou encostamos os brinquedos. Mais tarde, são as músicas preferidas de uma fase que parecem não fazer mais sentido, os livros que antes nos fascinavam e agora jazem intocados na estante, os instrumentos musicais que esperam pacientemente por mãos que não os tocam mais. As ferramentas daquele hobby que tanto amávamos, os pincéis de pintura, os materiais de artesanato... Quantas paixões, quantos pequenos universos particulares são silenciosamente guardados ou doados com um suspiro, seguido da velha frase: "Ah, não vou mais mexer com isso, não"?
Cada "não vou mais" é uma cor a menos na nossa paleta de vida.
O mais irônico é que, mesmo quando trocamos velhos interesses por novos hobbies, por novas tentativas de reacender aquele brilho, parece ser apenas uma questão de tempo até que também eles sejam deixados para trás, esmagados pela rotina, pelos desencantos da vida adulta e pelas obrigações da pura e simples sobrevivência. O ciclo se repete: empolgação, tentativa, abandono. E a chama, por mais que tentemos reanimá-la, teima em diminuir, deixando para trás um rastro de cinzas e lembranças de um colorido que parece cada vez mais distante.
Então, fico me perguntando: será que envelhecer é isso? É deixar de enxergar o colorido da vida? É um processo natural em que a percepção muda ou é uma escolha que fazemos, talvez sem perceber, quando só "priorizamos as prioridades"? Aquela capacidade de encontrar o tesouro no lixo, o brilho no desbotado, é algo que se perde para sempre ?
A vida, talvez, seja como uma longa subida por um monte desconhecido.
Na primeira metade do caminho, tudo parece promessa: o ar é fresco, o corpo tem força e os olhos, mesmo ofuscados pelo esforço, se deixam seduzir pela ideia de um topo que ainda não se vê. Cada passo é esperança, cada curva é mistério. A gente sobe como quem desafia o próprio destino, rindo do cansaço, projetando futuros nas pedras do percurso.
Talvez a graça esteja justamente ali… em não saber.
Mas então, chega o alto. O topo. Penso que é aí que começamos a envelhecer.
E a descida… bem, a descida é silenciosa.
Já não há mais a ilusão da conquista. Agora é só o peso do corpo, a gravidade puxando os passos e aquela sensação agridoce de que o melhor já ficou para atrás, escondido entre o cansaço e os sonhos da subida.
No fim das contas, talvez viver seja isso: Gastar-se na escalada, rir de si mesmo entre tropeços e guardar na memória, o máximo possível, a vista lá de cima.
Mesmo que os pés já não tenham mais a mesma força e os olhos só enxerguem o fim do caminho.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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