Tem gente que a gente admira pela genialidade, outros pela coragem. E há os que nos conquistam pela forma com que enxergam o mundo, mesmo quando o mundo está em ruínas. Tolstói é um desses. Nem sempre as grandes histórias são escritas pela força e pelo poder das espadas. Às vezes, elas surgem através de velhos sapateiros, camponeses e reis cansados de si.
A lição, desta vez, veio por mais um pequeno e singelo conto, mas que guarda nas entrelinhas um mapa para o que realmente importa.
No enredo, um rei atormentado pelas incertezas da vida decide que, se souber as respostas de três perguntas, será um rei soberano, mais sábio e mais justo.
As perguntas?
Qual é a momento certo para todas as coisas?
Quais são as pessoas certas para cada momento?
Qual a coisa mais importante a fazer?
Três interrogações que, cá entre nós, todos já fizemos em silêncio, olhando para o nada e sentindo a vida escorrer entre os dedos como areia fina.
O rei procurou respostas nos eruditos, nos sábios, nos que falam bonito, comprou cursos na internet e fez até mentoria com figurões. Mas, no final das contas, quem deu as respostas foi um eremita. Um homem simples que, sem grandes discursos, ensinou pela ação.
Para contextualizar, quando o rei chega à humilde morada do eremita, encontra-o cavando a terra, exausto. O eremita ouviu as perguntas do rei mas continuou cavando, sem responder nada. Vendo seu esforço e sem receber as respostas diretas que esperava, o rei oferece ajuda. Ele se curva, pega a enxada e começa a trabalhar ao lado do eremita, cavando a terra. Mas não sem insistir nas perguntas que o levaram até ali. O eremita, porém, apenas continuava seu trabalho em silêncio. Até que, quase no fim do dia, aparece um homem ferido e o rei se dedica a cuidar de suas feridas, oferecendo cuidado e compaixão. Até que vencido pelo cansaço de um dia tão agitado o rei também adormece.
No dia seguinte vem a surpresa: o homem ferido acorda e confessa que era um inimigo do rei, que viera matá-lo, por algo que considerou injusto no passado, mas havia sido ferido no caminho. Porém, ao vê-lo cuidando de suas feridas, decide que, de agora em diante, será seu servo mais leal.
O rei ficou feliz por ter se reconciliado com um inimigo e prometeu repará-lo no que considerou injusto, além de enviar seus servos e um médico para buscá-lo.
Antes de ir embora, porém, o rei resolveu pedir ao eremita mais uma vez as respostas que tanto desejava. Mas descobriu que foi nesses gestos inesperados de doação desinteressada e perdão que estavam as respostas. Não em teorias, mas na prática pura e simples que o momento exigia.
"A hora mais importante é apenas uma - AGORA! É o momento mais importante porque é a única hora em que temos algum poder. A pessoa certa ou a mais importante é aquela com quem estamos. Porque ninguém pode saber se ainda terá que lidar com outra pessoa. E a coisa mais importante é fazer o bem a ela. Porque só para isso uma pessoa é enviada para a vida."
Tolstói não nos joga lições.
Como sempre, ele planta. E as palavras germinam devagar, como certamente acontece com as sementes sob o chão gelado da Rússia. Porque a verdade que ele quer contar nunca vem de cima para baixo. Vem do chão. Vem da experiência, do suor, do perdão dado a um inimigo que sangra aos seus pés.
Tão simples que parece pouco. Mas quando a gente olha bem… é tudo.
E é nestas coisas que Tolstói me ganha: Ele não quer que a gente entenda e nem mude o mundo. Quer apenas que a gente o trate com mais cuidado.
É essa delicadeza bruta, quase camponesa, que me faz voltar ao que ele escreve. Ele não nos oferece respostas prontas, mas nos devolve perguntas gastas com uma luz nova.
Suas histórias não estão presas num passado distante, mas ali, no agora, no café que tomamos com pressa, no vizinho com quem mal falamos e num outro alguém que espera nosso olhar mais do que nossas palavras.
"Três Perguntas" é mais do que um conto. É um lembrete pendurado no varal da consciência: o que vale é o instante, é a presença, é o bem possível. E talvez seja isso que me faz considerar Tolstói o meu favorito. Não por ser inalcançável, mas por descer do trono, pisar na lama e me dizer: "olha ao teu redor, a resposta está aqui".
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior
Até a próxima!
Fabior

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