É curioso, e até um tanto improvável, que Tolstói tenha se tornado meu escritor favorito.
Não sou russo, não sou conde, não vivo (nem vivi) guerras, nem lavro a terra com as próprias mãos e, muito menos, seu contemporâneo. Mas talvez seja justamente por isso: Tolstói escreve sobre o que há de mais universal em nós. Ele nos aponta não os caminhos do mundo, mas os atalhos da alma.
Quando li "Do que Vivem os Homens", foi como se ele me dissesse: "venha aqui, que eu vou te contar uma verdade." E contou. Sem gritos, sem pregações. Apenas com a doçura de um velho que já sofreu bastante e agora só quer dividir o que aprendeu com a vida e com o silêncio.
O conto é simples. Um sapateiro pobre chamado Simão encontra um homem nu, tremendo de frio e medo, encostado num santuário à beira do caminho. Leva-o para casa, dá-lhe abrigo e trabalho. O homem, Miguel, fala pouco e trabalha muito. Mas aos poucos, Tolstói nos faz descobrir que esse estranho é, na verdade, um anjo, enviado à Terra para aprender três coisas essenciais:
- o que vive dentro do homem ?
Tolstói não dá respostas, ele convida à observação. Miguel, o anjo, precisa ver de perto. E vê a compaixão do sapateiro, o acolhimento da esposa, a ternura de quem divide o pouco que tem. A resposta surge silenciosa: o que vive dentro do homem é o amor.
Não o amor enfeitado dos livros, mas o amor prático, cotidiano, feito de gestos simples. O amor que ampara sem alarde. Que perdoa. Que cuida. O amor que vive até quando o mundo parece frio demais para sustentá-lo.
- o que não é dado ao homem saber ?
Miguel também aprende que não nos é dado saber o futuro. Ele presencia isso quando uma mulher encomenda botas para as duas filhas… mas uma delas morre antes de usá-las.
É uma lição dura. E ainda assim, necessária: não saber o amanhã nos obriga a viver o agora. A amar sem garantias. A oferecer o melhor de nós hoje, porque o depois pode não chegar. Tolstói não nos ensina a temer, nos ensina a valorizar.
- do que vivem os homens ?
E então, Miguel entende. Os homens não vivem apenas de trabalho, de pão, de previsões. Vivem do amor. Do amor que recebem e, sobretudo, do amor que conseguem dar. É o gesto de acolher um estranho, de confiar, de dividir a refeição. Esse é o milagre diário que sustenta o mundo.
Ao longo do conto, essas perguntas se transformam em espelhos. E quando a última resposta é revelada, que os homens vivem do amor, a gente entende por que Tolstói escreve como escreve.
Porque ele nunca está apenas contando uma história.
Ele está costurando nossas perguntas mais íntimas ao pano grosso da realidade.
Tolstói tem essa coisa: ele vê com os olhos da alma, mas escreve com os pés cravados no chão. Seus personagens não são ideias encarnadas; são gente. Sentem fome, inveja, medo, arrependimento, fé. Ele não embeleza a miséria nem esconde o pecado, mas encontra beleza na compaixão, dignidade no gesto simples, verdade nas entrelinhas.
Talvez seja por isso que ele me conquistou. Não por ser um mestre da linguagem (embora o seja), nem por suas tramas imensas. Mas porque ele parece acreditar que toda literatura vale menos que um único ato de bondade silenciosa.
Em "Do que Vivem os Homens", Tolstói nos lembra que não vivemos de pão apenas, nem de certeza, nem de razão. Vivemos, ainda que nem sempre admitamos, do amor que damos e recebemos. Dos gestos que parecem pequenos demais para fazer diferença, mas que sustentam o mundo. Um abrigo. Um par de botas. Um lugar à mesa. Um perdão.
Num tempo como o nosso, onde tudo é pressa, julgamento e individualismo, esse conto é um respiro. Uma vela acesa num galpão escuro. Ele nos pergunta: você ainda sabe amar?
E se a resposta for “não sei”, Tolstói, paciente como Miguel, responde: “então fique. A gente aprende junto.”
Até a próxima!

1 Comentários
Que texto lindo! Você fez uma análise profunda e emocionante do conto "Do que Vivem os Homens" de Tolstói, a forma como você descreveu a história e a mensagem de Tolstói é simplesmente inspiradora.
ResponderExcluirGostei especialmente da maneira como você destacou a importância do amor prático e cotidiano, que é o tema central do conto. A ideia de que os homens vivem do amor que dão e recebem é uma mensagem poderosa e relevante para todos nós.