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Cheiro de Asfalto Novo

Hoje, no caminho para o trabalho, passei a pé ao lado de trabalhadores que asfaltavam um pedaço de uma rua em obras. De repente, aquele cheiro do asfalto quente e do piche me puxou pelo colarinho da memória. 

Enquanto os operários seguiam mais à frente, espalhando o asfalto com uma espécie de rastelo, o rolo compressor vinha logo atrás, compactando tudo numa massa lisa, escura e fumegante. 

Bastou uma lufada para que, durante alguns minutos, eu deixasse de ser este homem de tantos anos para ser, de novo, aquele menino de doze, com o mundo inteiro ainda por inventar.

Sim, aquele cheiro me transportou diretamente para um acontecimento, um marco, um milagre urbano que mudou para sempre nosso jeito de brincar. Foi quando asfaltaram a minha rua.

Primeiro vieram as máquinas barulhentas, nivelando o piso de terra. Depois, o cascalho, e por fim, o piche e o asfalto quente... e aquele cheiro, o mesmo que senti hoje, tomando conta da vizinhança.

De um dia para o outro, nossas bicicletas ganharam mais velocidade, nosso futebol ganhou demarcações de meio-campo, laterais, áreas e gols. Até pequenas traves chegamos a fazer. E nossos sonhos ganharam mais espaço pra correr. Mas, acima de tudo, vivemos a era de ouro dos carrinhos de rolimã.

Não sei de onde surgiram tantos! De repente, parecia que todo mundo tinha um. 

Alguns improvisados, outros tradicionais; alguns com acessórios como bancos e freios de mão. Havia até um equipado com uma espécie de guidão! Um desfile de criatividade, mas com algo em comum: aquele barulho metálico inconfundível, deslizando pelo asfalto novo, ecoando pela rua como uma sinfonia de liberdade.

E a gente ria, desenhava traçados e cronometrava os tempos para ver quem era o mais rápido. Disputava corridas, derrapava nas curvas e voltava com o joelho esfolado, como quem retorna de uma batalha vencida. Improvisávamos engates e descíamos todos juntos, como se fôssemos um enorme trenzinho.

A rua virou parque de diversões. E o cheiro do asfalto, que hoje me assaltou na calçada, naquela época era perfume de novidade, de futuro em construção. Era o cheiro da rua dizendo: “agora vocês podem ir mais longe”.

É curioso como o tempo se dobra nessas pequenas armadilhas sensoriais. Basta um cheiro, um som, um lugar… e lá estamos nós, inteiros de novo, ainda que por alguns segundos apenas.

E talvez seja por isso que escrevo: para guardar esses segundos num texto antes que escapem de vez.

Hoje, no meu caminho, havia trabalhadores pavimentando uma rua qualquer. Mas o que eu vi mesmo foi minha infância deslizando num carrinho de rolimã, com o vento no rosto e cheiro de asfalto novo.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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1 Comentários

  1. Janaína Silva10/7/25 17:56

    Que delícia te ler assim, mergulhado nas tuas memórias... Quase pude sentir o cheiro do asfalto e ouvir o barulho dos rolimãs ecoando pela rua. Teu texto é mais do que lembrança — é poesia em movimento, é infância que renasce a cada palavra. Que presente precioso guardar esses segundos assim, com tanto afeto. Que privilégio é caminhar a vida ao lado de alguém que sente o mundo com tanta verdade.

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