Ontem, ouvi um sermão em que o preletor, entre outras coisas, falou sobre seu pai. Ou talvez sobre a falta dele.
Em determinado momento, bastou a ele repetir uma frase que o pai eternizou numa rede social, para que a voz vacilasse e as lágrimas rolassem. Não era apenas uma frase. Era tudo o que ela resumia: uma vida inteira. A marca de uma fé inabalável.
Isso revela algo bonito. Mas também desperta um enorme gatilho. Quem já perdeu alguém sabe. E foi inevitável que meus pensamentos fossem ao encontro do meu pai também.
Nem precisou muito. Esses dias mesmo eu precisei resolver uma questão burocrática e, entre os documentos necessários, o atestado de óbito dele que, durante alguns dias, permaneceu por ali, sobre a mesa, no meu campo de visão.
É curioso como um pedaço de papel consegue impor, com tanta frieza, algo que o coração resiste tanto a aceitar.
E passei o dia refletindo sobre perdas.
Sobre questionamentos.
Sobre as inúmeras vezes em que briguei com Deus, sentindo-me injustiçado; confuso, como os discípulos tantas vezes se sentiram; abandonado, como as irmãs de Lázaro certamente se sentiram.
Mas talvez exista outra perda, mais silenciosa.
Quando alguém parte, não deixa apenas um vazio. Mas leva também a pessoa que éramos ao lado dela.
Meu pai não levou apenas a própria história. Levou consigo o único homem que poderia me olhar como um pai olha para um filho. E levou também a versão de mim que só existia diante daquele olhar.
Em algum desses textos, escrevi que, se a nossa vida é feita de pessoas, somos uma mistura de muitas vidas. Trazemos conosco parte dos outros. Somos marcados pelas convivências. O que faz de nós relicários vivos.
Hoje, relendo anotações antigas, encontrei uma frase que eu mesmo havia escrito meses, talvez anos atrás.
Apenas cinco palavras.
"Frases de máquina de escrever."
Curioso como, às vezes, anotamos algo sem compreender completamente o motivo. Só mais tarde a vida nos entrega o contexto que faltava.
E, pensando melhor, talvez sejamos mais parecidos com folhas antigas datilografadas.
As pessoas escrevem em nós, suas palavras e atitudes. Há frases que nossos pais disseram centenas de vezes e que continuam aparecendo quando menos esperamos, como se tivessem sido datilografadas na memória.
Não há "undo". Não há editar depois. O que foi escrito, ficou.
E, às vezes, elas (as pessoas) revivem, por alguns segundos apenas, na maneira como falamos ou pensamos, em nossas manias. Numa expressão, um jeito de rir, uma receita, um conselho...
E ficou claro, então, por que aquele homem parou por alguns segundos ao repetir uma frase do pai. Não era apenas uma lembrança. Era a prova de que algumas pessoas continuam falando através de nós muito depois de terem partido.
A fé não nos livra da saudade, não desfaz a ausência e nem apaga a dor. Mas dá à vida um sentido que nem mesmo a morte consegue destruir, como frases de máquina de escrever, que continuam legíveis, muito depois que o papel amarelou.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior
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