A vida moderna tornou-se um constante teste de resistência. As coisas estão tomando proporções cada vez mais exageradas, gigantescas. As pessoas estão se tornando cada vez mais arrogantes, exigentes e nós, onde quer que estejamos, esperamos e exigimos serviços e atendimentos baseados em padrões de excelência e satisfação do cliente ou customer satisfaction. Foi o que aprendi em alguns cursos que fiz.
A verdade é que estamos nos tornando cada vez mais chatos e intolerantes. Não nos importamos mais com os outros. Estamos ficando cada vez mais egoístas. Lidamos com as pessoas como se fossem máquinas. Estamos sendo levados pela onda de uma sociedade caótica onde as vinte e quatro horas do dia já não são suficientes para a quantidade de coisas que precisamos fazer. Estamos passando correndo pela vida sem se dar conta disso.
Não gosto de escrever sobre coisas negativas, até porque, ao fazê-lo, tenho a tendência de exagerar. Mas é a forma que eu encontro de “externar” algumas de minhas opiniões e pontos de vista sobre coisas que eu não entendo bem e sobre as quais poderei mudar de opinião a qualquer momento. Portanto, sempre que escrevo sobre coisas negativas, sinto quase que a obrigação de terminar o texto de forma positiva que, ao fim e ao cabo, é o motivo pelo qual estou escrevendo.
Quero falar do quanto é vital fugir, mesmo que por algumas horas, dessa realidade louca que nos cerca. Digo isto porque, depois de algumas semanas difíceis no trabalho, cheias de pressões e cobranças, resolvi que, neste feriado de 12 de Outubro, uma quarta-feira linda de sol e calor, seria o dia da minha fuga.
Saí para fazer um agradável passeio até Bertioga, que pode não ser nenhuma dessas praias badaladas aí que você acabou de pensar enquanto torcia o nariz, mas foi o retiro que escolhi para esta tarde.
Do prazer de dirigir sem pressa num dia especialmente calmo, sentindo aquele clima de litoral que tanto gosto e que tanta falta me faz. De parar o carro no primeiro lugar que escolher sem que haja ninguém por perto pedindo pra tomar conta.
De olhar o azul escuro do mar se encontrar no horizonte com o azul claro do céu e perceber a beleza que há nisso.
De caminhar sentindo as ondas beijando os pés em seu interminável vai e vem (clichezinho vagabundo esse, eu sei), como se tudo na vida se resumisse àquele momento.
De perder a noção do tempo e não ter que se preocupar com isso. De não carregar nenhum relógio ou celular, mas apenas uma máquina fotográfica para registrar os detalhes dos quais não se quer esquecer. De olhar para a montanha ao lado do canal e admirar seu verde.
De sentir o barulho das ondas enchendo os ouvidos e fazendo desaparecer todos aqueles outros sons do nosso cotidiano como alarmes, buzinas, teclados, congestionamentos, telefones e expressões ou termos que usamos todos os dias.
De saborear pela primeira vez o famoso “Pastel do Trevo de Bertioga” e ficar com a impressão de ter tomado parte do melhor pastel do mundo.
De ter vivido uma tarde onde a maior preocupação foi o vento bagunçando o que me resta de cabelo. Dos pensamentos sobre casas e apartamentos de frente para o mar. Do pequeno museu do Forte São João, que é o mais antigo do Brasil, construído em 1547, e que imaginei como seria morar nele.
Do show da Rádio da Praia e do locutor mentiroso que anunciava pelo rádio que havia mais de oito mil pessoas no tal evento e, eu que havia acabado de passar por ele, estimei que houvesse no máximo umas mil e quinhentas.
Do suco de milho do Rancho da Pamonha, na Mogi-Bertioga. Do anoitecer na estrada que eu tanto gosto. Das luzes do painel ficando cada vez mais claras enquanto tudo ao redor ficava cada vez mais escuro. De dirigir longos trechos em silêncio apenas pensando na vida.
Enfim, do quanto é possível viver em apenas uma tarde. E do quão bom é ter agora, em casa, depois de tudo isso, todas essas imagens na retina e de ter a certeza do bem que elas nos fazem.
São coisas que guardo só pra mim até porque não acho que minhas observações possam acrescentar mais do que a paisagem por si só.
Amanhã, aquele mundo que mencionei no início deste texto estará novamente à minha espera. Mas não reclamarei, pelo menos não nos primeiros momentos, porque é graças a ele que aprendemos a valorizar tanto uma tarde de paz com gosto de maresia e suco de milho.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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