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Andanças

Sol, céu azul, um lugar legal e disposição. É o suficiente para uma boa caminhada.

Ainda mais quando se caminha onde repousa parte da rica história do Brasil. Era nisso que pensava segundos antes de abrir a porta e botar a cara para fora.

Ao fazê-lo, porém, vi uma densa névoa cobrindo tudo, inclusive a serra que me propus a atravessar. Temi pelo fracasso do passeio, mas bastou alguns passos pela rua ainda vazia, para perceber que, em pouco tempo, toda aquela névoa se dissiparia e que teríamos, sim, sol e céu azul de doer.

Gosto de caminhar por lugares onde viveram ou passaram personagens importantes da História do Brasil e imaginar como viviam, o que faziam e como se tornaram capítulos importantes dos livros de História. Não que conheça tantos lugares assim ou que o faça com frequência, apenas gosto de pensar assim. Manias, enfim.

Levo uma vida extremamente sedentária e sempre achei que não tivesse condições de encarar uma caminhada de aproximadamente cinco horas (tempo que dura a travessia da Serra de São José). No entanto, apesar do meu condicionamento físico precário, resolvi que era hora de encarar o desafio e fazer essa travessia como comemoração dos dez anos da minha primeira visita aquele lugar. Travessia essa da qual sempre ouvi falar, mas nunca havia tido a oportunidade de fazer.

SAIBA MAIS: Serra de São José

Trata-se de uma trilha guiada e um primo que trabalha numa agência que oferece esses passeios me convidou para acompanhá-lo desta vez.

Enquanto eu esperava a chegada das pessoas e a formação do grupo que faria o passeio, toda aquela “serração” foi se dissipando e, ao chegar no famoso alto da igrejinha de São Francisco, para um breve aquecimento, o céu já estava limpo e o sol brilhando forte.

Nosso grupo era formado por aproximadamente trinta pessoas e, uma vez confirmada a presença de todos, iniciamos a caminhada saindo de Tiradentes pelo bairro do Cascalho em direção à calçada dos escravos e à subida da serra. 

Não demorou muito e já não havia mais casas ao redor e foi curioso notar que aquele grupo inicial já começavam a se dividir:

Neste passeio, havia três guias: Meu primo, que ia à frente puxando a fila, coordenando as paradas para descanso e para as histórias. 

Um segundo guia acompanhando o grupo intermediário e ainda um terceiro guia, monitorando os retardatários para que ninguém ficasse para trás ou se perdesse. Afinal, não havia atletas em nosso grupo. Apenas turistas querendo fazer algo diferente.

Na primeira parte da caminhada, considerada fácil, o guia impôs um ritmo mais forte para ganhar tempo. E avançávamos eu, ele e um garoto de uns 10 anos. Um garoto pentelho que não me deixava conversar e ficava o tempo todo andando na frente sem nem saber o caminho.

A partir desse momento, passei a criar uma certa antipatia por ele e também uma certa rivalidade. Afinal, se alguém ali deveria andar na frente com o guia era eu, que já conhecia o guia e também boa parte daquele caminho. 

Mas o garoto insistia em atravessar o caminho e também as conversas, o que é bem pior. 

Enfim, o que estava acontecendo ali era aquela velha disputa por atenção, muito comum entre crianças.

Continuando. O grupo retardatário era discreto e formado por senhoras ou senhores de terceira idade, acompanhados dos filhos, que os acompanhavam durante a caminhada e nunca se afastavam deles.

Já o grupo intermediário era formado por casais de meia idade, acompanhados de parentes (irmãos e irmãs, cunhados e cunhadas), falando pelos cotovelos, fazendo chacotas uns dos outros o tempo todo e ostentando os detalhes de suas vidas abastadas, sobre como é nadar não sei quantos quilômetros por dia, frequentar academias onde malham celebridades, jantar em restaurantes chiques e sobre suas vidas de empresários(as) bem sucedidos(as) e como todo aquele cenário e o passeio propriamente dito nada tinha nada a ver com suas requintadas vidas e atividades cotidianas e suas adegas climatizadas.

Obviamente não sou contra essas coisas. O que me irrita é aquele ar meio blasé e uma espécie de competição para descobrir qual deles era o mais exibido. 

Na minha preconceituosa opinião, coisa de novos-ricos-bobos. 

E eu, como não sou nem rico, nem novo, talvez apenas bobo, acabei indo na frente, disputando atenção do líder com o garoto de 10 anos.

Devo dizer que me senti muito bem no início da caminhada. Assim, imaginei que venceria o trecho de subida com facilidade. Mas não foi bem assim e, não fossem as paradas estratégicas que os guias fazem para contar detalhes do local e dar um pequeno descanso ao pessoal, imagino que teria tido problemas para completar a travessia.

Aos poucos fui vencendo a subida e vendo a cidade cada vez menor lá embaixo. O que me lembrou uma música dos dos Engenheiros do Hawaii que diz:

"Se eu pudesse, ao menos te contar
O que se enxerga lá do alto
Com o céu aberto, limpo e claro
Ou com os olhos fechados

Se eu pudesse ao menos
Te levar comigo lá...
Pro alto da montanha
Num arranha-céu
Pro alto da montanha
À toa, ao léo (...)"

Caminhadas em lugares como esses são boas para fazer em silêncio, ouvindo os sons da natureza e a própria respiração. Funcionam exatamente como diz a letra da música que citei. Realmente pode se enxergar muita coisa, até mesmo com os olhos fechados. 

Deve ser o ar puro, a vista ou a falta de oxigênio no cérebro causada pelo fôlego curto.

É bom pensar na vida olhando uma cidadezinha minúscula lá embaixo. Seria importante fazer isso mais vezes, é como um alinhamento de perspectiva, uma oportunidade de perceber como algumas coisas na vida são tão pequenas quando vistas de outro ângulo.

É uma bela vista aquela lá de cima. Da ponta de uma pedra no ponto mais alto da serra é possível ver muito longe e gostei muito de observar a sombra que as nuvens formavam no chão lá embaixo. É algo difícil de explicar. Na verdade, havia algumas poucas nuvens pequenas mas era interessante observar as enormes sombras que elas produziam.

- Bobagens!

Você poderá dizer. Eu respeito mas discordo. 

A beleza e o prazer de uma viagem estão em saber desfrutar da simplicidade das coisas.

De se encantar com a simplicidade das nuvens, sombras, o som das águas de uma cachoeira, o cantar de pássaros e até o barulho dos passos no chão de cascalho, que ficou ecoando na minha cabeça por horas depois. 

Do prazer de caminhar sem relógio, sem hora pra chegar, onde a maior preocupação era rivalizar com um garoto de dez anos pra ver quem andava na frente.

Mas meu triunfo sobre ele não tardaria a chegar. 

Como já disse no início, era uma “comemoração” de dez anos da minha primeira visita a este local e, embora eu nunca tivesse feito a travessia completa da serra, já havia feito muitas outras andanças pela região. Numa delas, fui com este mesmo primo que hoje é guia até uma cachoeira que fica a justamente na parte final dessa trilha e que reconheci imediatamente.

Como ele sabia que, dali em diante eu conhecia o caminho, disse que eu poderia continuar avançando devagar enquanto ele ia dar uma olhada no grupo intermediário que havia ficado um pouco para trás.

Foi divertido ver o garoto claramente confuso. Afinal, não tinha mais o guia por perto e ele não sabia se voltava ou continuava em frente comigo. Acabou decidindo por me seguir, tomando o seu devido lugar. 

Lembrei do meu pai me sacaneando e de sua expressão rindo e dizendo:

- Você ainda não sabe nada da vida.

Continuamos caminhando mantendo sempre meu primo no campo de visão até chegarmos à cachoeira onde deveríamos fazer uma parada. 

A cachoeira infelizmente não estava grande coisa por causa da estiagem. Além disso, a água era muito gelada e foram poucos os que se aventuraram a entrar.

Finalizada a parada para banho e descanso.

Bastou o guia dizer que iríamos continuar que o diabo do garoto já saiu correndo na frente novamente.

Contrariado, resolvi que era hora de parar com essa bobeira, afinal de contas não tenho mais idade para rivalizar com garotos de dez anos que gostam de chamar a atenção para depois serem elogiados e mimados pela família. Além do mais, já tinha conquistado o seu respeito, o que para mim já era o bastante.

Fora tudo isso, foi uma caminhada puxada. Eu estava cansado e sem a mesma paciência para continuar com a brincadeira.

Quero finalizar este texto e o raciocínio inicial dizendo que, de que servem viagens senão pra isso? 

Para apreciar a beleza de nuvens, sombras, sons, paisagens e se divertir como garotos de dez anos?

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

PS: Infelizmente não tive o cuidado de perguntar o nome do garoto para que pudesse imortalizá-lo nesse texto. Uma pena, provavelmente nunca mais o verei. Fazer o quê ? Mais um desses vacilos que a gente comete sem perceber...

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