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Lindóia, Água, Carros e a Lua

Águas de Lindóia, a apenas 180 km da capital paulista, na divisa com Minas Gerais, é uma joia do Circuito Paulista das Águas. Com suas estâncias vizinhas como Amparo, Serra Negra e Socorro, a cidade oferece um refúgio de tranquilidade e, como descobri em minha visita, surpreendentes doses de história e emoção.

Muito antes dos mapas e das divisas de estados, a terra onde hoje floresce Águas de Lindóia era uma imensa floresta, habitada por povos indígenas. Conta uma antiga lenda Caiapó, registrada em cerâmicas milenares, a história de uma jovem que acompanhava seu pai idoso e enfermo. Distantes da tribo, eles encontraram abrigo junto a um córrego de águas quentes. Uma visão de um pajé lhes indicou que se banhassem e bebessem daquelas águas. O milagre aconteceu: pai e filha foram curados de suas dores, marcando o ribeirão das águas quentes como um lugar de poder curativo. Este é o relato mais antigo que se tem notícia sobre as fontes do que hoje é o Balneário Municipal de Águas de Lindóia.

Séculos depois, no final do século XVII, as mesmas águas abençoadas se tornariam um refúgio para os Bandeirantes, exaustos e feridos em suas longas jornadas em busca do ouro no interior do Brasil. O "Morro Pelado" era o sinal da chegada ao pouso junto ao ribeirão, onde se banhavam e renovavam as forças antes de seguir viagem. Mais tarde, os Tropeiros, em suas rotas comerciais, também encontrariam ali um ponto de descanso vital, lavando seus ferimentos e recuperando o ânimo.

Duzentos anos após os Bandeirantes, a floresta presenciaria a chegada do grande visionário desta história: o Dr. Francisco Tozzi. Em 1900, um convite de seu amigo, o padre Carmelo D'Angelo, trouxe este jovem médico italiano de Benevento, Itália, para o Brasil. Com apenas 30 anos, e já com a experiência de ter sido Secretário de Saúde de Milão, Tozzi aceitou o desafio, acompanhado de seu tio, o padre Henrique Tozzi.

Em 1909, um evento crucial ocorreu: o padre Henrique curou um eczema na perna banhando-se nas águas do "Morro das Águas Quentes". Inspirado por seu conhecimento da história do termalismo romano e grego, o Dr. Tozzi enviou uma amostra da água para análise, confirmando seu elevado poder curativo. Por um golpe de sorte, as terras onde as fontes estavam localizadas, o Sítio Poços da Água Quente, foram a leilão no mesmo ano. Ao adquiri-lo, Tozzi se tornava, sem saber, o pai-fundador de um dos mais formidáveis destinos termais do planeta.

Para realizar seu sonho, ele embarcou em uma verdadeira epopeia: a construção do zero das Thermas de Lindoya. Isso significou abrir estradas em meio à mata fechada, transportar materiais em lombos de mulas e investir na produção de energia elétrica, engarrafamento de água mineral e toda a infraestrutura urbana necessária para acolher pacientes e turistas. Ele construiu hotéis como o Catete e o Glória, além de hortas, granjas, farmácia e até uma capela, a Nossa Senhora das Graças. O Dr. Tozzi, literalmente, construiu uma cidade entre as copas das árvores, transformando a região no que hoje conhecemos como Águas de Lindóia, poeticamente descrita por sua neta como "A Cidade das Águas Azuis".

Minha visita, entre 17 e 21 de abril de 2009, coincidiu com o Encontro Paulista de Carros Antigos, um verdadeiro espetáculo para os olhos. A Praça Adhemar de Barros, já naturalmente charmosa, transformou-se em um museu a céu aberto, exibindo uma coleção impressionante de veículos que abrangia todas as épocas e estilos. De clássicos originais a Hot Rods ousados, de calhambeques a Opalas, Mavericks, Corvetes, Fuscas e Pumas, a diversidade era cativante. Até caminhões e ônibus antigos marcaram presença, completando o cenário.

A organização impecável dos carros, dispostos por categorias, realçou a beleza da praça e das ruas adjacentes, todas tomadas por essas relíquias sobre rodas. Para os entusiastas, o evento era um paraíso: um vasto espaço dedicado ao comércio de peças (novas e usadas) e itens colecionáveis. Era impossível não se render aos encantos das miniaturas, camisetas, bonés e até mesmo antigas bombas de combustível, um deleite para os colecionadores mais fervorosos.

A feira também oferecia a chance de adquirir carros antigos, uma tentação para quem, como eu, sonhava em iniciar uma coleção. Confesso que tive vontade de levar uns cinco modelos para casa! Mas a realidade de que coleções exigem tempo, dedicação e um bom investimento financeiro rapidamente me trouxe de volta à terra, especialmente ao lembrar da atenção que meu único carro já demanda.

Minha curiosidade me levou a pesquisar sobre Águas de Lindóia, e as descobertas foram fascinantes. A água mineral da cidade é, comprovadamente, a de maior radioatividade natural do planeta, atingindo incríveis 3179 maches na escala radioativa. Para se ter uma ideia, as famosas fontes de Jachimou (antiga Tchecoslováquia) e Bad Gastein (Áustria) registram apenas 185 e 155 maches, respectivamente. Esta radioatividade natural é considerada extremamente benéfica para o organismo, classificando-a atualmente como oligometálica, hipossódica, hipotermal, oxigenogasosa e radioativa na fonte.

A fama das Thermas de Lindoya ecoou internacionalmente, atraindo até mesmo a lendária Madame Curie. Em agosto de 1926, a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel (e a única pessoa a conquistá-lo duas vezes, em Física e Química) visitou a cidade para estudar suas fontes radioativas. O Dr. Tozzi a recebeu pessoalmente, e Madame Curie, ao examinar as fontes, confirmou a presença da radioatividade, validando uma das propriedades mais benéficas da água.

E prepare-se para esta: há indícios de que a água utilizada na Missão Apollo 11, que levou o homem à Lua, era de Águas de Lindóia! Uma nota fiscal datada de 2 de abril de 1969 (três meses e meio antes da chegada à Lua) registra o embarque de 100 dúzias de garrafas de 500 ml de água mineral da cidade para Cabo Kennedy, a pedido da NASA. Segundo o Balneário Águas de Lindóia, a baixa acidez, o rápido grau de absorção e o elevado poder diurético da água teriam sido os motivos de sua escolha, para consumo dos astronautas e até mesmo para as baterias do foguete Saturno V. Embora a NASA não confirme abertamente, a existência do registro em si já é um motivo de orgulho lunar para a cidade.

Porém, a lenda que mais me cativou é a do túnel secreto no Monte Sião, na divisa com a cidade homônima. Diz a história que este túnel liga o monte diretamente a Machu Picchu, no Peru. Embora especialistas tenham tentado explorá-lo, alguns relatos mencionam a visão de uma caverna ao final de um abismo, envolta em vegetação densa. Essa história me remeteu imediatamente a "Viagem ao Centro da Terra" de Júlio Verne, um livro que marcou minha infância. Seria, de fato, sensacional!

Águas de Lindóia é uma cidade que pede uma visita sem pressa e com alguma pesquisa prévia. Para aproveitar ao máximo seus atrativos e desfrutar de uma programação de viagem completa, é fundamental conhecer as diversas opções que a cidade oferece. Seja para relaxar em suas águas termais, reviver a história automotiva, desvendar seus mistérios ancestrais ou se conectar com feitos científicos e espaciais, Águas de Lindóia é um destino que promete uma experiência única e memorável.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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