É preciso ter histórias para contar.
A vida por si só já é uma história sendo contada.
Um dia que não queria acabar. Semanas que passaram voando. Férias inesquecíveis. Fases difíceis, outras nem tanto. Conscientemente ou não, a história está sendo contada. Dia após dia.
E há sempre algo novo. Seja a quilômetros de distância, numa caminhada pela vizinhança ou no caminho de ida e volta do trabalho.
Mas para contar histórias é preciso, sobretudo, viver. Mais. É preciso observar e ouvir. Momentos, lugares, pessoas e oportunidades passam rápido. Quase como areia fina escorrendo por entre os dedos. Por isso, é preciso estar pronto para tornar esses momentos marcantes.
Mas também é preciso viajar. Sair do lugar e ver o que há além do horizonte. Abrir a mente e simplesmente ir lá ver. Nem que seja apenas pra dizer "Fui, vi, conheci e não gostei. Viagens são fontes ricas de histórias. Micos em geral são mais marcantes.
Há quase 10 anos, fui passar um final de semana prolongado em Petrópolis, numa pousadinha isolada na serra. Era essa mesmo a ideia: isolamento.
Chegaríamos tarde, por volta de 23hs e de ônibus. Por isso deveríamos ligar para a pousada ao chegar no lugar marcado e eles então iriam nos buscar. Tudo corria bem até esse momento, quando descobrimos que um celular estava sem sinal e o outro sem bateria.
Havia um boteco ou restaurante (sei lá), ainda aberto onde saltamos do ônibus. Entramos, explicamos a situação e perguntamos se podíamos usar o telefone deles. A resposta foi que o telefone estava quebrado, mas desconfiamos que foi má vontade mesmo e o máximo que conseguimos foi uma explicação bem mal humorada de como chegar na tal pousada.
Minutos depois nos vimos sozinhos, tarde da noite, na serra de Petrópolis, diante de uma estradinha de pedras completamente escura, cercada de mata e com uma ou outra luz amarela lá no meio.
Minha então namorada, hoje esposa, com uma mala do tamanho da África e uma sandália plataforma sobre a qual mal podia andar. Ah, e apenas para dar um toque especial, gotas frias ameaçavam uma chuva que poderia cair a qualquer momento. Não havia escolha a não ser encarar e torcer para não ser tão longe quanto parecia.
Os problemas eram vários. Barulhos sinistros na mata, provavelmente por causa do vento e da chuva que ameaçava cair, dificuldade para enxergar onde pisava, o peso da minha mala, da mala dela. Sem contar o fato de que eu ainda tinha que servir de apoio para ela que mal conseguia parar de pé naquela plataforma (nunca mais a vi depois disso, a sandália).
Hoje, com o recurso do Google, é possível ter uma ideia da distância que percorremos naquela noite. Pouco mais de 1 km. Não é muito, mas naquele momento parecia uma eternidade.
Chegamos na pousada quase meia-noite, cansados, meio molhados e com cara de assustados. O rapaz da pousada nos atendeu com olhar incrédulo pois, baseado no que tínhamos combinado, àquela altura ele deveria estar nos esperando apenas no dia seguinte.
Não lembro mais dos detalhes da pousada. Ainda não tinha o hábito de escrever sobre as viagens, mas lembro que seu nome era Chalé da Montanha. Obviamente não procurávamos luxo e sim um lugar bonito e romântico para aproveitar aqueles dias que foram muito especiais.
Mas eu dizia que histórias são experiências. Sejam elas frustradas, felizes, pequenas descobertas pessoais como lugares tão agradáveis que nem imaginávamos existir ou mesmo interesses que nem sabíamos possuir por coisas que nunca fizeram parte do nosso cotidiano.
A rotina faz parte da vida e, embora seja até certo ponto saudável, pode ser como uma vidraça suja que nos impede de ver com clareza o que acontece do lado de fora.
Evidente que é difícil de enxergar essa beleza no dia-a-dia em função de nossas incontáveis atividades mas, ao sair de casa para uma viagem, para um lugar que não se vai com frequência é preciso estar com a mente, o coração e alma abertos. É preciso estar disposto a ver, sentir, tocar e deixar todas essas sensações tomar um pouco do espaço que a rotina ocupa em nossas vidas.
Não se pode sair de casa, rodar 200, 500 ou 1000 km e voltar vazios, como se nem tivesse saído. É quase um desperdício de tempo e de oportunidade. Oportunidade que a maioria não têm, de viver algo novo, de renovar os pensamentos e, finalmente, quebrar a rotina.
A vida é feita de momentos e escolhas mas, sobretudo, de histórias.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior


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