Cultura é um bem inestimável do homem. O patrimônio cultural de um povo faz parte dos bens insubstituíveis da humanidade. Sua perda constitui o empobrecimento de todos os povos do mundo.
Aleijadinho era um nome recorrente durante minhas primeiras viagens à Tiradentes (MG), cidade cuja existência descobri em 1996, talvez um pouco antes, em função de uma tia que havia se mudado para lá. Tinha 17 ou 18 anos e nenhum interesse cultural ou histórico ainda, mas me lembro de minha tia dizendo que a Igreja Matriz de Santo Antônio era a “Igreja do Aleijadinho”. Na época, aquilo não me dizia muita coisa a não ser alguém que trabalhou em algumas das igrejas de Minas. Mas, de alguma forma, esse nome acabou ficando na minha cabeça desde então.
Alguns anos mais tarde, com a aquisição do meu primeiro carro, tive oportunidade de viajar um pouco mais e conhecer muitos outros lugares, especialmente no sul de Minas pois, como visitava minha tia com certa frequência, usava a casa dela como base para, de lá, partir para outros lugares.
Caxambu, São Lourenço, Lambari, São João Del Rey, Prados, Resende Costa, Cel. Xavier Chaves, Barroso, Congonhas do Campo, Ouro Preto, Mariana e Belo Horizonte são exemplos de algumas de minhas andanças por aqueles rincões.
Quanto mais eu conhecia aquela região, suas cidades e igrejas, mais crescia minha admiração pelo chamado Barroco Mineiro, bem como meu interesse pelo seu contexto histórico. E só então descobri quem, de fato, era Aleijadinho.
Antônio Francisco Lisboa, esse o seu nome, possui uma história de vida e de obras tão interessantes quanto a de qualquer outro grande e renomado artista internacional de qualquer época. Eu já tinha alguma ideia de sua importância quando, por acaso, assistindo a um documentário da série Expedições, fui definitivamente atraído para a beleza de suas obras e do barroco mineiro de uma forma geral. O documentário em questão está disponível abaixo:

O trabalho de Aleijadinho, pode ser encontrado em várias cidades mineiras, inclusive, quando minha tia dizia que a Matriz de Santo Antônio era a igreja do Aleijadinho, o que ela queria dizer, na verdade, é que ele foi responsável pela fachada daquela igreja mas, é em Congonhas do Campo (MG), no Santuário Bom Jesus de Matosinhos que Aleijadinho deixou sua maior contribuição ao patrimônio histórico-cultural da humanidade. As esculturas do conjunto arquitetônico e paisagístico do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, formado por uma igreja, um adro com esculturas de Doze Profetas em pedra sabão e seis capelas com cenas da Paixão de Cristo talhadas em cedro por Aleijadinho. O conjunto foi tombado pelo patrimônio histórico (IPHAN) em 1939 e considerado Patrimônio Mundial da Humanidade (Unesco) em 1985.
O que sei é que, ao assistir ao documentário, senti que teria que visitar o local. Não por uma questão religiosa e nem devocional. Mas para ver de perto. Ter minhas próprias impressões sobre tudo que ouvira e para conhecer a verdadeira e mais importante obra de Aleijadinho. E foi o que fiz.
A primeira oportunidade surgiu numa linda manhã de sol e céu azul. Acordei cedo e, em pouco mais de uma hora, devorei os 100 km que separam Congonhas de meu “acampamento base” em Tiradentes.
Não sei bem o que pode parecer mas, o que posso dizer é que valeu a pena. É como se, ao vivo, toda a beleza daquelas obras fosse ainda mais eloquente. Da mesma forma, é impressionante ver de perto como todo o conjunto, incluindo o próprio local onde foram construídos, a igreja, os passos formam um cenário que não pode ser descrito de outra forma a não ser como um verdadeiro santuário. Quem sabe, uma verdadeira manifestação divina através das mãos de um homem seriamente afetado por uma terrível doença degenerativa. Veja mais abaixo a Biografia Resumida.
Pena que foi rápido. Hoje sinto falta de ter aproveitado um pouco mais aquele dia. Ficado mais algumas horas, fotografado um pouco mais, conversado com algumas pessoas e conhecido um pouco mais os arredores. Só depois descobri que existe também a Romaria. Um lugar que serviu de abrigo para romeiros de várias partes do país e que foi totalmente demolido em 1968 para dar lugar a um hotel que nunca foi construído. A Romaria foi completamente reconstruída em 1994 mantendo as características originais e funciona hoje como Centro Cultural de Congonhas. Vai ficar para a próxima.
Congonhas é mais uma na minha lista de cidades que gostaria de retornar, junto com Ouro Preto e Mariana.
Há muitas informações sobre Aleijadinho na internet. no entanto, sua biografia é um tanto confusa e pouco documentada mas, antes de encerrar esse texto, deixo a seguinte frase.
“Aos seus nada deixa, ao mundo deixou muito. Sua arte, sua lição de vontade, seu talento imortalizado.” – Antonio Francisco Lisboa – 1730? – 1814.
Biografia resumida
“Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa) nasceu em Vila Rica no ano de 1730 (não há registros oficiais sobre esta data). Era filho de uma escrava com um mestre-de-obras português. Iniciou sua vida artística ainda na infância, observando o trabalho de seu pai que também era entalhador.
Por volta de 40 anos de idade, começa a desenvolver uma doença degenerativa nas articulações. Não se sabe exatamente qual foi a doença, mas provavelmente pode ter sido hanseníase ou alguma doença reumática. Aos poucos, foi perdendo os movimentos dos pés e mãos. Pedia a um ajudante para amarrar as ferramentas em seus punhos para poder esculpir e entalhar, demonstrando um esforço fora do comum para continuar com sua arte.
Mesmo com todas as limitações, continuou trabalhando na construção de igrejas e altares nas cidades de Minas Gerais.
Na fase anterior a doença, suas obras são marcadas pelo equilíbrio, harmonia e serenidade. São desta época a Igreja São Francisco de Assis, Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões (as duas na cidade de Ouro Preto).
Já com a doença, Aleijadinho começa a dar um tom mais expressionista às suas obras de arte. É deste período o conjunto de esculturas Os Passos da Paixão e Os Doze Profetas, da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, na cidade de Congonhas do Campo. O trabalho artístico formado por 66 imagens religiosas esculpidas em madeira e 12 feitas de pedra-sabão, é considerado um dos mais importantes e representativos do barroco brasileiro.
A obra de Aleijadinho mistura diversos estilos do barroco. Em suas esculturas estão presentes características do rococó e dos estilos clássico e gótico. Utilizou como material de suas obras de arte, principalmente a pedra-sabão, matéria-prima brasileira. A madeira também foi utilizada pelo artista.
Morreu pobre, doente e abandonado na cidade de Ouro Preto no ano de 1814 (ano provável). O conjunto de sua obra foi reconhecido como importante muitos anos depois. Atualmente, Aleijadinho é considerado o mais importante artista plástico do barroco mineiro.”
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior
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