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O Quintal de D.Pedro I

Comecei esse texto emburrado. Na verdade, recomecei.

Já o tinha escrito uma vez, em um outro momento, com outras percepções e outros detalhes em mente. Mas vasculhei os computadores que costumo usar de todas as formas possíveis e nada. Simplesmente sumiu. Sei lá.

Agora só me resta recorrer à minha memória para tentar reproduzir com a maior fidelidade possível ao desaparecido e, se você estiver lendo este texto, é um bom sinal. Significa que fui mais organizado desta vez e não o perdi novamente.

Já disse em outras oportunidades que gosto de visitar lugares que serviram de cenário para fatos importantes da História. Gosto de tentar imaginar como teria sido, de verdade, as cenas descritas nos livros e o que se passava pela cabeça dos ilustres personagens enquanto pisavam, há muitos anos, aquele mesmo pedaço de chão.

O engraçado é que só valorizamos esses lugares quando estamos longe de casa, em viagens, bancando o turista. Paradoxalmente, o tema desta coluna é, talvez, o mais importante local da História do nosso país e fica a apenas trinta minutos da minha casa. Mesmo assim, só fui conhecê-lo aos 29 anos de idade.

Há algumas razões que justificam esse absurdo.

1 - As escolas em que estudei, durante o tempo em que estive nelas, nunca fizeram excursões para lá. Ao contrario, levavam a gente pro Playcenter (fui umas três vezes, acho), Cidade da Criança e até no programa do Bozo.

2 - Meus pais nunca se interessaram por esse tipo de passeio e, portanto, nunca me levaram.

3 - E, finalmente, houve uma certa fase da vida em que eu mesmo também não me interessava muito por locais como este. Por completa ignorância, é claro!

O local ao qual me refiro desta vez é o Museu do Ipiranga. Fui visitá-lo pela primeira vez quando cismei que queria ver o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo. Tela que cansei de ver em revistas e livros de História mas que, um belo dia, resolvi que deveria ir ver de perto.

De uma forma geral, gostei muito do museu mas, o que me impressionou mesmo foi o tal quadro. Ao vê-lo nos livros não tinha ideia de que trata-se de uma tela de quase oito metros de largura por quatro de altura e até me arrisco a dizer que a beleza deste quadro por si só já vale a visita.

Algum tempo depois, com a chegada do Elvis, meu Golden Retriever e o início de seu adestramento, percebi que o museu é bem mais que apenas um museu. Na verdade, é um belo parque, que acabei conhecendo porque as “aulas” do Elvis aconteciam lá, nas manhãs de domingo, bem cedinho.

Muitas vezes encontrávamos o parque totalmente vazio ainda e era legal ter o “quintal” do museu só para nós. Depois das “aulas”, aproveitávamos para caminhar com Elvis e conhecer melhor o Parque da Independência.

Mas é aos finais de semana que se percebe a importância do parque como opção de lazer. Há pessoas de todas as idades caminhando, andando de bicicleta, patins, passeando com seus cachorros ou simplesmente espalhadas pelos bancos, gramados e escadarias, desfrutando o sol da liberdade em raios fúlgidos. E em seu formoso jardim, a imagem do arco-íris, formado pelo “spray” de seus chafarizes, resplandece compondo, assim, uma atração à parte.

Soube que, eventualmente, o parque também pode ser aproveitado para realização de shows e eventos.

Atrás do museu há um bosque com trilha para caminhada. Fiz uso dessa trilha algumas vezes mas me senti incomodado com a presença de alguns sujeitos estranhos, geralmente sentados sozinhos ao longo da trilha. Não confio neles. Parecem estar em outra dimensão mas, ao mesmo tempo, prontos a dar cabo de qualquer desavisado que ousar ultrapassar suas fronteiras imaginárias.

Dentro do parque ainda estão o Monumento à Independência e a Casa do Grito.

A Casa do Grito tem seu valor histórico questionado até hoje, pois os documentos existentes indicam que a casa, apesar de estar representada no quadro de Pedro Américo quando da proclamação da independência, na verdade ainda não existia. É o que aponta seus registros mais antigos, de 1844. Atualmente a casa abriga o Museu do Tropeiro com a intenção de representar o ambiente do que se imaginava ser um típico pouso de beira de estrada do início do século XIX.

O belíssimo Monumento à Independência também é conhecido como Altar da Pátria e em seu interior há um espaço para exposição e uma cripta, chamada de Capela Imperial. É lá que repousam os restos mortais de D. Pedro I, de sua primeira esposa, D. Leopoldina, e também de sua segunda esposa, D. Amélia.

Admirei enternecido as urnas ali expostas, especialmente a de D. Pedro I e tentei imaginar uma porção de coisas. Em primeiro lugar, se ele tinha ideia da grandeza e das consequências de um ato como o dele. Às vezes penso que não. Afinal, li que o Hino da Independência foi composto por ele logo após o brado retumbante. O que me leva a crer que, saindo do Ipiranga, ele foi pra casa fazer um som com seu companheiro de banda Evaristo da Veiga e enquanto ele, Pedrão, compunha a melodia, Vavá escrevia lá uma letra. E foi dessa jam session que saiu o Hino à Independência do Brasil. É mole ?

Tentei imaginar ainda quais seriam os planos dele para o Brasil à partir daquele momento, o que ele pensaria sobre o Brasil de hoje e até, se em algum momento, ele imaginou ser ali sua última morada, ao lado de suas duas esposas e exposto à visitação pública.

Do lado externo, o monumento é repleto de detalhes e referências a episódios e personalidades relativos ao processo de independência (Ex: Revolução Pernambucana, Inconfidência Mineira, José Bonifácio, entre outros principais articuladores do movimento).

Na área frontal, entre o monumento e as margens não tão plácidas do riacho do Ipiranga, está a Pira, que foi acesa em 1952 e que significa o Amor Incondicional pela Pátria.

SAIBA MAIS: Museu do Ipiranga

Gosto de toda essa simbologia. Acho necessária e, de alguma forma, até inspiradora também. Porém, na prática, não consigo enxergar nos brasileiros um amor incondicional pela Pátria que, por sua vez, também não se esforça muito para merecê-lo. Pelo contrário. Sua condição de mãe gentil se torna bastante questionável quando submete os filhos deste solo a um sacrifício cada vez maior do fruto de seu suor em forma de impostos, oferecendo muito pouco ou quase nada em troca. Mas isso já é outro assunto.

Acho que o que mais me desperta o interesse por lugares históricos seja justamente isso. Os símbolos, os elementos que compõem cada um desses lugares, ilustrações ainda vivas dos fatos ocorridos numa época que já não existe mais. Há lugares repletos desses elementos, outros nem tanto, mas sempre cheios de significados, contando silenciosamente uma História repleta de lições que insistimos em não aprender, mas que se torna cada vez mais rica e mais acessível a cada vez mais brasileiros, através dos mais diversos tipos de mídia.

Quem sabe se, entendendo um pouco melhor a nossa História e os eventos que nos trouxeram até aqui, temos condições de escolher melhor o rumo que queremos dar ao Brasil. Coincidentemente ou não, escrevo esse texto às vésperas do 7 de Setembro. Daqui mais alguns dias teremos eleições. Mais uma chance corrigir erros, de influenciar nessa História e de aprender com ela.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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