Paraty é um lugar especial para mim por vários motivos.
Inicialmente, por ter sido cenário de inesquecíveis viagens na companhia de minha esposa. Depois, por ter conhecido vários dos locais descritos pelo velejador Amyr Klink em seus livros, que tanto me inspiraram a escrever textos como este. E, finalmente, por ser um importante lugar na história do Brasil.
Durante o Ciclo do Ouro, os metais preciosos do interior de Minas Gerais (como ouro e diamantes) eram transportados através da Estrada Real até Paraty e, de lá, por mar para o Rio de Janeiro, onde eram embarcados para Portugal.
Posteriormente, a abertura de uma nova rota para o Rio de Janeiro trouxe à Paraty um grande isolamento econômico que durou até a inauguração da rodovia Rio-Santos, que colocou definitivamente a cidade no cenário turístico nacional e internacional.
O acesso à Paraty se dá pela conhecida Rio-Santos (BR101). Para quem parte de São Paulo, há várias opções para alcançar a BR101. Desta vez, a rota escolhida foi: Airton Senna / Gov Carvalho Pinto (SP 070) até a Oswaldo Cruz SP-125, passando pela famosa serrinha de Taubaté até chegar na BR101, em Ubatuba.
A Serra de Taubaté pode ser um caminho complicado. Seu trajeto é repleto de curvas cegas e íngremes onde poupar os freios é fundamental para não ficar sem eles no meio da descida por causa de superaquecimento.
Minha primeira experiência nesta estrada aconteceu meio por acaso. Voltava com minha esposa de Angra dos Reis, todo pimpão, a bordo do meu primeiro automóvel e portando minha carteira de motorista (ainda provisória) novinha em folha. Olhando as placas, achei que subindo por ali, cortaria caminho até São Paulo. Não tinha a menor ideia do que havia pela frente e o que vivi ali foi um belo teste de direção para alguém que nem tinha tanta experiência assim ao volante.
Era dia, mas logo no início da subida já dei de cara com uma neblina em que não enxergava um palmo adiante do nariz. Era possível ver apenas alguns metros da faixa amarela dupla que divide a pista. E assim foi por todo o trecho de serra. Fiz vários trechos em primeira marcha sem saber quando acabava a curva e pra que lado era a próxima. Foi divertido, pra não dizer tenso. E até hoje não sei dizer se aquele caminho era, de fato, mais curto ou não.
À exemplo das minhas primeiras viagens à Paraty, esta também foi muito especial, embora por motivos totalmente diferentes. Foi mais como uma fuga, um escape de um final de semana especialmente difícil. Eu havia encontrado minha avó morta dentro da casa dela depois que alguns vizinhos chamaram insistentemente por ela no portão, sem que houvesse qualquer resposta. Causas naturais. Ela morava sozinha, tinha bastante idade e a saúde bem debilitada. Pra ser sincero, até certo ponto, era algo esperado. Só não era esperado que fosse eu a encontrá-la. E os procedimentos que se seguiram ao fato como delegacia, boletim de ocorrência, IML, velório e enterro também foram bem desgastantes. Sempre são.
Aquela imagem de morte, do momento em que a encontrei caída dentro de casa e tentei virá-la, imaginando que pudesse estar apenas desmaiada, ficava reprisando na minha mente o tempo todo.
Eu precisava fugir pra algum lugar cheio de vida e esta viagem, que estava programada com bastante antecedência (coincidentemente para o dia seguinte ao do enterro), foi como uma providência divina para minha necessidade naquele momento.
Viajamos em grupo. Quatro casais. Eu estava cercado de pessoas muito próximas, basicamente primos e amigos, todos solidários ao momento que eu acabara de passar e dispostos a tornar aquela viagem o mais aprazível possível.
Paraty estava no mesmo lugar e, de acordo com minhas lembranças, mais ou menos do mesmo jeito que deixei da última vez que estive lá. O que é bom. Afinal, é o que se espera de uma cidade tombada pelo patrimônio histórico.
Assim que chegamos, a primeira providência foi fechar rapidamente um passeio de barco para aproveitar bem o dia. Conseguimos coisa melhor. Um barco só pra nós. O Latitude, comandado pelo capitão André, que esteve à nossa disposição o dia todo, prestou um ótimo serviço e nos levou à três dos principais lugares mais visitados nos passeios de barco em Paraty.
O primeiro deles, uma ilha particular de águas calmas ótimas para mergulho. Eu invariavelmente não consigo aproveitar muito este tipo de passeio porque não sei nadar. Embora boiar não exija grandes habilidades, o medo me impede, inclusive, de tentar. Nesta parada fiz uma tentativa e desci com aqueles espaguetes ou macarrão, sei lá. Mas, mesmo cercado de pessoas, não me senti muito seguro e voltei para o barco, onde fiquei de fotógrafo.
A próxima parada era há apenas alguns minutos de onde estávamos: Praia Vermelha. De águas cor verde-esmeralda. Parada clássica dos passeios de escuna onde aproveitamos para almoçar.
E a última parada, a pequena praia de Jurumirim, de águas calmas e cristalinas, onde está a casa do velejador Amyr Klink e de onde ele parte para suas expedições. Foi lá que resolvi que era hora de vencer alguns medos e, com o barco já devidamente parado e todos dentro d´água fui convidado a descer. Convencido por todos que ali estavam, inclusive pelo capitão André, resolvi que não havia mesmo perigo e desci.
Ao final da escada recebi um macarrão ou espaguete, não sei direito e soltei a escada. Não dava pé. Óbvio. E eu pensava apenas em não deixar escapar o raio do macarrão ou espaguete, não lembro. Meu primos se aproximaram e foram meio que me rebocando em direção a praia pois, sozinho, não conseguia nem virar para o lado que eu queria e, nervoso, tinha os músculos trêmulos como nunca vi igual. Essa reação foi apelidada por um de meus primos como V8. Mas eu estava disposto a vencer aquele trauma. Neste momento, um engraçadinho me dizia:
– Olha nos meus olhos!! Eu tô aqui!!”
– E se eu precisar, você vai me salvar, por acaso ? – Perguntei.
– Claro que não! Eu também não sei nadar ! – Respondeu ele
Diante de uma resposta como esta, só restava tentar me acalmar e seguir as orientações deles, já bem mais experientes com macarrão ou espaguete, não importa.
Aos poucos, fui conseguindo me controlar melhor dentro d’água. Ao chegar mais perto da praia me ensinaram manobras mais arrojadas como girar em torno de mim mesmo, ficar em pé e boiar de barriga pra cima e de barriga pra baixo. Com o perdão do trocadilho, foi um curso de imersão em técnicas de macarrão ou espaguete, tanto faz.
Me senti muito bem naquele lugar. A centenas de quilômetros de distância dos acontecimentos dos dias anteriores, onde tudo ao redor lembrava morte, lá estava eu vencendo velhos medos num lugar absolutamente cheio de vida e agradecendo a Deus por aquela oportunidade.
Enquanto boiava olhando para o céu, inúmeras coisas passavam pela minha cabeça. Entre elas, uma falava mais alto; não por acaso, um trecho do livro “Mar Sem Fim” do próprio Amyr Klink que diz:
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”
Foi um dia perfeito que só foi acabar bem depois, num jantar, depois de um passeio pelo centro histórico.
No dia seguinte, acordei cedo e, antes do café, eu já estava na rua. Queria fazer algumas fotos da cidade ainda vazia. É algo que gosto de fazer sempre que tenho oportunidade. Logo após o café estava programado um passeio em Trindade. Não havia tempo a perder.
Trindade, foi um capítulo à parte. Chegamos com a intenção de visitar as piscinas naturais do caixa d´aço. Quem já conhecia, dizia que poderia ser feito de barco ou através de uma trilha. Eu estava entre os mais dispostos que, mesmo sem saber direito o que nos esperava, optaram pela caminhada. A outra metade do grupo optou pela travessia de barco. Nos separamos e partimos da Praia do Meio em direção às piscinas naturais.
Atravessamos um primeiro trecho de trilha de uns 15 minutos até a Praia do Caixa d´aço. Cumprimos esta primeira etapa tranquilos e “tirando onda” por ter sido bem fácil. Em seguida, atravessamos toda praia para, então, enfrentar uma outra trilha até as piscinas.
Aí sim fomos surpreendidos. Esse trecho bem mais longo, escorregadio e com lama por todos os lados.
Chegamos às piscinas esperando encontrar a outra parte do grupo, que deveria ter chegado há tempos, uma vez que tinham ido de barco. E, aí sim fomos surpreendidos novamente. Não havia ninguém lá. Procuramos onde era possível e não encontramos. Após uma série de impropérios, decidimos que o correto seria voltar. A maré estava subindo e havia ainda alguma possibilidade de chuva. Foi o que fizemos. No início, emburrados mas, ao final, completamente cansados de andar e de rir, tamanha a quantidade de bobagens que dissemos pelo inevitável e penoso caminho de volta.
Entre subidas, descidas e muita lama, resolvemos aproveitar nossa recém adquirida experiência em trilhas e aventuras, para executar o planejamento de uma empresa voltada para treinamento de aventureiros iniciantes.
O curso será constituído de vários módulos que poderão ser feitos individualmente também, a saber:
Módulo I
– Dominando o Espaguete (Conceitos e Manobras Básicas)
– Nadando de Chinelo com Espaguete (Conceitos Básicos)
– Trilha de Chinelo para iniciantes (Básico e Intermediário).
– Lama & Chinelo (Conceitos Básicos de Equilíbrio).
Módulo II
– Se livrando de guias caiçaras (Básico).
– Sobrevivendo à enxames de Joaninhas.
– Mijando no Mato (Teoria e Prática).
– Controlando a Labirintite à beira de barrancos.
– Resistência Física (Conceitos Superficiais e Duvidosos).
Quando finalmente chegamos, encontramos a outra parte do grupo. Todos sentados à mesa de um restaurante na Praia do Meio. Todos com cara de entediados. Desistiram da travessia de barco por causa do preço abusivo.
Como havíamos nos separado antes de fecharem com o barco e nenhum de nós estava com celular, não tiveram como nos avisar e também não se sentiram confortáveis em nos seguir.
Quando chegamos às piscinas e vimos que eles não estavam, ficamos chateados por termos ido até lá à toa. Porém na volta, quando os encontramos, percebemos que nós é que nos divertimos e a eles só restou aguardar o nosso retorno.
Desencontros da vida. Fazer o que ?
Mais uma vez deixei Paraty com a sensação de uma viagem inesquecível. Mais um presente vivido com a intensidade merecida e mais um capítulo da minha longa história com essa cidadezinha tão especial.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior
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