Eu gosto desses textos que circulam por aí, soltos na internet, muitas vezes sem dono.
Textos escritos por anônimos ou desconhecidos, numa época em que não existia os chats GPTs da vida. Talvez por isso mesmo, tão universais. Guardo alguns, são como bilhetes encontrados naquelas garrafas lançadas ao mar.
É interessante e até curioso perceber que, quando tentamos encontrar a origem desses escritos, acabamos nos deparando com várias versões. É como se fossem ganhando um toque de verdade, de estrada, de observação e, claro, da personalidade daqueles que andam por aí com os olhos e o coração abertos.
Esses dias, ouvindo um sermão, acabei me lembrando de um desses textos. Falava de uma mala. Talvez a minha. Talvez a sua.
Não vou usar aspas porque eu também darei o meu toque de personalidade:
Encheu a mala com diplomas, medalhas, títulos e algumas certezas pesadas. Dobrou com cuidado suas ideias fixas, guardou rancores bem embalados em plástico bolha, empilhou algumas cobranças que fazia a si mesmo desde que era jovem e sem entender bem o porquê. No fundo da mala, deixou um espaço para os medos. Só para garantir.
A cada parada, porém, notava que a bagagem pesava mais, mesmo que não tivesse adicionado nada de novo. O que antes parecia essencial, agora o fazia andar mais devagar.
Na metade do caminho, já bastante sobrecarregado, resolveu abrir a mala. Pensou que poderia se livrar das culpas. Depois, percebeu que aqueles aplausos já não tinham mais som e que as cobranças só ecoavam em sua própria cabeça. E se livrou deles também.
Os ressentimentos, acabou deixando numa estação qualquer, junto com a pressa e os traumas.
E foi só bem mais adiante, que percebeu que havia esquecido de levar o que realmente importava: os abraços que recusou por orgulho, os silêncios em que gritou quando poderia ter escutado, o cheiro de casa que se perdeu nas mudanças e os risos simples, aqueles que não são interrompidos pela lembrança dos problemas vida e não se encontram mais em diplomas, cargos e títulos.
Foi então que começou a encher a mala com outras coisas: histórias, lembranças boas, amizades sem cobranças, perdões silenciosos, cartas que nunca mandou, mas que agora fariam sentido e fé, claro.
No final da viagem, sua mala era leve. Mas não vazia.
Carregava apenas o que tinha valor: o amor que ofereceu e recebeu, o bem que fez sem esperar retorno e os nomes que não quis esquecer.
E partiu tranquilo!
Talvez, e só talvez, tenha sido assim porque ele aprendeu que o que deve nos acompanhar até o fim não é o que pesa, mas sim o que acolhe.
E, mais do que aprender, ele DECIDIU deixar para trás todo o excesso de peso que nos prende em alguma estação das nossas vidas e que nos deixa cansado demais ao ponto de muitas vezes nos fazer desistir de continuar a viagem.
São as DECISÕES que tomamos que fazem a diferença em nossas vidas e não os sentimentos. Sentimentos são enganosos. O que sentimos hoje, podemos não sentir amanhã. E se as nossas decisões forem pautadas pelos nossos sentimentos, estaremos sujeitos a uma vida de enganos e equívocos que, inevitavelmente, se tornarão pesos em nossa bagagem.
E eu sigo por aqui, procurando lembrar de abrir a minha mala de vez em quando. Porque todo aquele esforço que fazemos para fechá-la mais uma vez, só vai deixá-la ainda mais pesada. Se tem esforço para fechar e para carregar, é porque a mala está cheia demais.
É preciso entender que há coisas que não cabem mais e deixá-las para trás. Em primeiro lugar, para viver uma jornada mais leve e, depois, para abrir espaço para o novo e para as surpresas que as próximas estações podem nos trazer.
Porque viver, no fim das contas, é isso: aprender a arrumar a mala sem pressa, carregando só o necessário. E quando o tempo chegar e for hora de partir, que minha mala esteja leve, mas cheia de mim.
Em outras palavras, quando a morte chegar, que ela me encontre VIVO.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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