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Série Tolstói - O Diabo (1889)


Há livros que parecem contar histórias de um passado tão distante, que pouco ou nada tenham a ver com o mundo em que vivemos hoje. Mas basta uma leitura um pouco mais atenta, para perceber que ainda são capazes de descrever realidades muito próximas a nós. 

O Diabo, de Liev Tolstói, é um desses. Escrito em 1889, publicado só após sua morte em 1911, é quase um soco no estômago: rapido, seco, implacável. Como quase todo conto de Tolstói. E ainda permanece tão atual quanto o feed de hoje cedo.

O protagonista, Yevgeniy Irtenev (Yev), é o tipo de homem que, visto de longe, a gente até admira: correto, racional, disciplinado. Ele herda as terras do pai endividado e decide reformar tudo: a fazenda, a vida e a si mesmo. Casa-se com Varvara, uma jovem culta e virtuosa e jura viver segundo os preceitos cristãos que Tolstói, já em sua fase religiosa, defendia com fervor. Tudo sob controle. Até que não estava mais.

E o motivo é Stepanida. Uma camponesa com quem Yevgeniy teve um caso fugaz antes do casamento e que um dia aparecera para trabalhar na fazenda, contratada sem aviso por um de seus funcionários. Um corpo, um cheiro, um olhar e pronto. O desejo volta como febre. Mesmo casado, mesmo “curado”, mesmo sabendo que é errado. Ele tenta ignorar, racionalizar, rezar. Mas o corpo não obedece à mente. E é aí que entra o diabo.

Tolstói não fala de um diabo externo. Fala do impulso interno, daquele canto escuro que todos carregamos. Na fase final de sua vida, o autor via a luxúria como a maior armadilha da alma. Não por ser pecado, mas por ser escravidão. Em A Sonata a Kreutzer (1889), outro conto sobre o mesmo tema, ele chega a defender a castidade absoluta. Aqui, em O Diabo, ele é mais sutil: mostra que negar o desejo não o mata, apenas o alimenta no escuro.

E o mais impressionante?  Tolstói não conseguiu escolher um final.

Ele deixou dois. Ambos terríveis:  

Final 1 - Yev mata Stepanida, é preso e volta um ano depois: vivo, mas um cadáver ambulante — doente, alcoólatra, sem alma. O diabo venceu sem precisar matá-lo.  

Final 2 - Yev se mata antes de ceder novamente, como um ato de purificação. Morre, para “salvar” sua alma. O diabo foi expulso pela morte, mas entendo que venceu também porque destruiu a vida de Yev e de sua família.

Qual é o pior inferno? Viver destruído… ou morrer para não se destruir? O que me lembrou de outra frase: Saber o que é certo e errado é fácil. Difícil é saber qual errado é mais certo.

O assunto me perseguiu por dias.

É uma história que ressoa ainda hoje porque as tentações mudaram de forma, mas não de essência. Talvez não seja mais a camponesa no celeiro e sim o scroll infinito, o “só mais um episódio”, o affair sem futuro, o status social que nunca é suficiente, aquele cigarrinho, aquela bebidinha, aquele comprimidinho, só mais uma apostinha pra recuperar a última perda.

Vivemos cercados de Stepanidas. 

E, como Yev, tentamos manter a fachada: “Tranquilo, eu controlo isso e paro quando eu quiser.” Até que algo dentro desaba.

O erro de Yev não foi desejar. Foi fingir que não desejava. Esconder o abismo em vez de se afastar dele. Tolstói nos provoca: e se a saída não for vencer o diabo, mas reconhecê-lo? Não para se render, mas para fugir dele e não acabar cedendo aos próprios impulsos.

Eu acredito que ele foi vencido em ambos os finais. Mas confesso que, do ponto de vista cristão, o final em que ele se mata para "salvar" sua alma e não acabar em adultério, quase me colocou num deadlock teológico.

Acredito que aqui há algo que talvez valha uma pausa para pensar. 

Os mandamentos de Deus ao Seu povo dizem: entre a vida e a morte, escolham a vida. Além, claro, de “Não matarás.” Tirar a vida de qualquer pessoa, incluindo a própria vida, de forma intencional. - Deuteronômio 30:19-20 e Êxodo 20:13.

Já no Sermão da Montanha, Jesus disse:

“Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e atira-a para longe; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno.” Mateus 5:29-30.

Yev levou ao pé da letra. No Final 2, ele arranca tudo, o próprio corpo, para não pecar de novo. É um ato de desespero por pureza. Quase um martírio.

Deadlock teológico ?

Se Yev obedece a Jesus, desobedece o 5º mandamento, porque se mata, cortando e lançando fora o que o faz pecar.

Se Yev obedece o 5º mandamento, "não matarás",  desobedece a Jesus e cai no adultério.

Tolstói sabia disso. Talvez seja por isso que não escolheu um final. Porque não há saída moral perfeita… ou será que há?

Lembre-se que eu disse "quase caí num deadlock teológico" porque talvez não haja deadlock algum. Apenas uma tensão criativa.

 - Jesus falava em hipérbole para chocar. Lembrando que Ele sempre usava parábolas para ilustrar seus ensinamentos.

 - Por outro lado, os mandamentos eram as regras básicas de vida e convivência para uma nação que acabava de nascer (o povo havia saído do Egito e caminhava para terra que Deus havia prometido). Eram as leis que seriam os pilares de uma nação eleita por Deus como seu povo.

 - E Tolstói apenas falava sobre um drama humano para mostrar que ninguém escapa limpo.

Yev não “cumpre” nem “falha”. Ele personifica o impasse:

“Se eu vivo, peco. Se morro, desobedeço. O que resta?” 

É por isso que o final 2 não é redentor: é assustador.

Mas eu penso que há, sim, uma saída para Yevgeniy. Talvez Tolstói tenha escondido essa saída no meio do caminho:  a fuga.

Quando Yev viaja e se afasta da fazenda por dois meses, as novidades da viagem, os novos amigos que fez e a sondagem que recebeu para assumir uma nova posição pública o transformaram num homem feliz novamente. O nascimento da filha trouxe uma série de novos sentimentos e ele se sentia um novo homem.

A fuga funcionou. Pelo menos enquanto durou. Mas ele volta. Volta porque a fazenda é dele. Toda sua vida está lá. Porque fugir é admitir derrota. E Tolstói não dá essa saída como solução. Ele apenas a mostra como ilusão temporária.

Mas eu penso que sim. Essa é a verdadeira moral: fugir não é covardia, é estratégia. E talvez a lição não seja escolher entre os dois finais, mas criar um terceiro que Tolstói se recusou a escrever: 

- Fuja enquanto pode. Mude de ares. Corte o gatilho, não o corpo. Afaste-se da Stepanida. Seja ela física, digital, emocional. Não espere o abismo engolir. Saia antes.

Jesus disse “arranque o olho”. Mas arrancar o olho pode ser fechar o app, mudar de cidade, bloquear os contatos. Não precisa ser literal. Precisa apenas ser sábio.

Porque o inferno nem sempre é um lugar com fogo e enxofre. Muitas vezes é uma escolha. É o momento em que você perde o freio, deixa o desejo pilotar e se torna escravo de suas próprias vontades.

Assim como a virtude, talvez não seja a pureza ou santidade absoluta (que é impossível), mas a lucidez de saber que a carne é fraca mas, ainda assim, escolher, dia após dia, não ser seu fantoche.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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