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Série Tolstói - A Morte de Ivan Ilitch (1886)

Não lembro exatamente quando resolvi que queria ler Tolstói. 

Possivelmente devo ter visto alguma frase ou citação que me chamou atenção e fui pesquisar sobre, por que ler e por onde começar.

Meu primeiro Tolstói foi "A Morte de Ivan Ilitch" (já falarei dele) e me surpreendi como uma literatura tão antiga (1886) e russa, poderia ter me cativado tanto assim. Tanto é verdade que, logo na sequencia, li também "A Confissão". Neste, Tolstói está no auge de sua crise espiritual, rasgando a própria alma para questionar o sentido da vida. Na minha opinião, é até mais profundo que o primeiro e que acabou me inspirando a escrever dois textos. Clique abaixo para ler.

Realidade Aumentada

E agora, Claudião? 2022

Hoje me lembrei de Ivan Ilitch, não como um livro apenas, mas como se fosse um parente ou conhecido e, por incrível que pareça, senti saudades. Há livros que nos cortam em silêncio, como aquele vento gelado numa manhã de inverno.

A Morte de Ivan Ilitch é assim. Um romance profundamente filosófico e psicológico que trata de temas como a morte, a falsidade da vida social e a busca por significado existencial, que são temas mais profundos e que provocam longas reflexões.

Obviamente que isso acaba transbordando em outros textos que escrevo aqui, nas músicas que escuto e, claro, nos outros títulos de livros que me despertam interesse.

No caso de Ivan Ilitch, é uma narrativa que mostra, sem piedade, o que há de mais frágil e verdadeiro em nós. Tolstói não apenas nos fala sobre a morte, ele nos força a sentir seu cheiro, seu peso e aquele gosto amargo na boca. 

E, no meio desse desespero, surgem lições que doem, mas também libertam.

"Tudo Estava Errado" – A Vida Escorreu Entre os Dedos

No leito de morte, Ivan Ilitch olha para trás e percebe que sua vida foi uma sucessão de mentiras bem-vestidas.

"Era como se eu estivesse descendo uma montanha e achasse que estava subindo. Foi assim. Na opinião pública, eu subia e, na mesma medida, a vida se esvaía debaixo de mim."

Ele seguiu o roteiro da sociedade: carreira, família, status, mas nunca perguntou: Isso me faz feliz? Sua existência foi um teatro, onde todos, inclusive ele, representavam papéis. A doença rasga o palco e o deixa nu. E aí, a pergunta que ecoa é:

Quantas de nossas certezas são apenas cascas vazias?

"Ninguém entende" – A Solidão do Sofrimento

Ivan grita de dor, mas os médicos falam através de diagnósticos distantes, imprecisos e incompreensíveis para ele.

Os amigos comentam sua morte como um incômodo morno, tratando com formalidade e frieza, como se fosse só mais um trâmite a ser resolvido.

Até sua família vira uma sombra irritada:

"O que mais o atormentava era a mentira — aquela mentira, aceita por todos, de que ele estava apenas doente e não morrendo, e que só precisava ficar em paz e fazer os tratamentos para que algo muito bom acontecesse."

Aqui, Tolstói expõe nosso pavor coletivo da morte. Preferimos fingir que ela não existe, virar o rosto para quem sofre. Mas Ivan não quer palavras vazias, quer apenas que alguém segure sua mão e diga: "Sim, você está morrendo e eu estou aqui."

Quantas vezes, no lugar do afeto, oferecemos apenas rituais vazios?

"Não é a Morte, é a Luz" – A Última Revelação

Nos momentos finais, algo muda. Ivan para de lutar contra a morte e a entende. A angústia se dissolve, e ele vê, talvez pela primeira vez, o que realmente importa:

"E de repente ficou claro para ele que o que o atormentara e não saíra de lugar nenhum… que tudo isso se desfazia de uma vez, de dois lados, de dez lados, de todos os lados."

Não é sobre resignação, mas sobre aceitar a vida como ela é. 

A compaixão do servo Guerássim, o único que não mente, mostra que o verdadeiro conforto está na simplicidade: um copo d’água, uma mão estendida, um "eu sei" sincero.

O Que Fica (Além das Lágrimas)

Ivan Ilitch nos ensina que:

A morte é a grande professora da vida. Ela rasga o véu e nos obriga a perguntar: Por que vivi?

O sofrimento não é um acidente, mas um convite. Para parar. Para olhar nos olhos. Para escolher diferente.

O único amor que importa é o que resiste à podridão. Como Guerássim, que lava o corpo de Ivan sem nojo, porque "todos morreremos".

No fim, Tolstói não nos deixa desesperançados. A agonia de Ivan é também um parto: ele morre para o falso e nasce, enfim, para o real. E para nós, leitores, fica uma pergunta incômoda: Como viver antes que a morte nos ensine à força?

"A vida é assim: um instante de claridade no meio da escuridão. E talvez baste."

Um Lento Afundar na Escuridão

Tolstói não nos entrega o desespero de Ivan Ilitch de uma vez. Ele progride como um fio que vai se apertando, devagar, quase imperceptivelmente, até que não haja mais ar. É uma queda sem alarde, mas sem volta.

No começo, há apenas um mal-estar vago, um incômodo que Ivan atribui a algo passageiro. Um mau jeito, um resquício de cansaço. Ele ainda ri disso, ainda acredita no corpo que sempre o serviu tão bem. Mas a dor insiste, teimosa e logo migra de um detalhe irritante para o centro de sua existência. Tolstói descreve esse processo com uma frieza que dói: não é apenas o corpo que adoece, mas a própria percepção da vida.

Os médicos, com seus termos incompreensíveis e seus sorrisos profissionais, só ampliam o abismo. Eles falam de rins, de apêndices e de coisas que não significam nada para Ivan, porque o que ele quer é uma resposta para o terror que começa a roer suas entranhas. 

"Por que eu? Por que agora? Mas não há resposta. Só há protocolos, prognósticos vazios, a mesma encenação social que sempre dominou sua vida, agora aplicada à sua morte."

E então vem o isolamento. Aos poucos, Ivan percebe que ninguém (nem a esposa, nem os colegas, nem os amigos), quer realmente encarar o que está acontecendo. Sua agonia é um inconveniente, um assunto a ser evitado em jantares. Até sua família se afasta, não por maldade, mas por um instinto covarde que todos temos: a recusa em aceitar que o sofrimento alheio também nos pertence. A única pessoa que o enxerga de verdade é Guerássim, o servo camponês, cuja simplicidade lhe permite enfrentar a morte sem mentiras. Enquanto os outros sussurram e disfarçam, Guerássim segura suas pernas doloridas sem medo, porque ele sabe: todos morremos e não há vergonha nisso.

Mas Ivan ainda resiste. Ele se agarra à ideia de que isso é um erro, um pesadelo do qual vai acordar. Aos poucos, porém, a evidência se impõe: ele está morrendo e nada do que construiu, nem sua carreira, nem seus bens, nem sua respeitabilidade pode salvá-lo. 

É aqui que o desespero atinge seu ápice, não como um grito, mas como um silêncio sufocante. Ele se dá conta de que talvez tenha vivido errado, de que passou anos correndo atrás de coisas que não importam e agora é tarde demais para recomeçar.

Só então, no fundo desse poço, vem a quietude. Não a paz, mas uma espécie de rendição. A morte já não é mais um inimigo e sim uma presença inevitável, quase familiar. E no último instante, quando a escuridão já está quase completa, há um clarão: não era resposta, mas entendimento. Ivan não encontra Deus, nem o sentido da vida, mas algo mais simples e mais raro: a aceitação. Ele para de lutar e nesse momento, paradoxalmente, ele finalmente se liberta.

Tolstói não nos poupa. Ele nos faz acompanhar cada passo dessa jornada, cada tremor, cada lampejo de negação. E no fim, o que fica não é apenas a história de um homem que morre, mas um espelho para todos nós. Quantos de nós ainda estamos vivendo como Ivan, correndo do único destino que não podemos evitar?

Quantos de nós precisaremos da morte para aprender a viver?

Deixo aqui uma das últimas linhas do livro (que arrepia sempre):

"‘Acabou!’, disse alguém sobre ele. Ele ouviu essas palavras e as repetiu em sua alma. ‘A morte acabou’, disse a si mesmo. ‘Ela não existe mais.’"

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

PS: Disponível gratuitamente abaixo em audiobook:

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