Costa do Descobrimento 2018
Sol, Areia, Vento e Mar - Parte Final
Sol, Areia, Vento e Mar - Parte 3
De todas as paisagens fantásticas e histórias interessantíssimas que ouvi, há um assunto em especial que sempre retorna à minha memória quando penso nesses lugares ou quando me deparo com algo relacionado ao descobrimento do Brasil.
Escrevo sobre isso, não porque ache que vá influenciar alguém, mas para registrar aqui, nesse pequeno e quase privado espaço, mais um tema que considero instigante e que terei prazer em reler no futuro.
Há uma tese segundo a qual a descoberta portuguesa das terras brasileiras teria ocorrido no litoral potiguar, na Praia do Marco, em São Miguel do Gostoso, vizinha a Touros, no Rio Grande do Norte e não em Porto Seguro, na Bahia.
Não é papo furado de boteco: trata-se de um debate acadêmico antigo que ganhou força com a obra Reinvenção do Descobrimento (1998), de Lenine Pinto, e que foi retomado por estudos recentes, baseado em documentos antigos e evidências geográficas.
Tive oportunidade de visitar os dois lugares. Porto Seguro, considerado o berço oficial do Brasil, ostenta a história de Pedro Álvares Cabral em cada esquina. Já na região de Touros e São Miguel do Gostoso, a brisa constante e o mar do Rio Grande do Norte parecem guardar um segredo nao revelado.
Depois de pesquisar bastante e acompanhar a divulgação de novos estudos, comecei a questionar se o que me ensinaram na escola corresponde mesmo à verdade.
Em Porto Seguro, tudo é grandioso e moldado para reforçar a narrativa histórica. Subi a ladeira do Sítio Histórico e, no topo, encontrei o Marco do Descobrimento. O pedaço de mármore com as insígnias portuguesas, protegido sob uma redoma de vidro, parecia um altar. Ao lado, a placa reafirmava a versão que todos conhecem: a chegada de Cabral, a primeira missa, o encontro com os índios.
Lá, descobri outro marco, bem pouco divulgado: o Marco de Touros. Trata-se de uma replica do padrão original de pedra (que está em exposição no Forte dos Magos, em Natal). Diferente do de Porto Seguro, ele fica exposto á beira de uma praia, quase esquecido, como se fosse apenas um detalhe menor.
Algumas semanas depois, já em casa, mergulhei na internet buscando documentos sérios sobre o tema. E é a partir deles que surgem os argumentos que me fizeram acreditar que essa tese pode, sim, fazer sentido.
O Astrólogo e o Enigma das Coordenadas
Mestre João Faras, astrólogo e médico da frota de Cabral, escreveu uma carta para o Rei Dom Manuel relatando suas observações astronômicas. Nela, descreveu a altitude do sol ao meio-dia no dia 27 de abril de 1500.
Com base nesses dados, o professor de geofísica da USP, Moacyr de Vasconcellos, calculou a latitude da medição: cerca de 5 graus e 15 minutos de latitude sul: região de Touros, no Rio Grande do Norte. Porto Seguro, por sua vez, está a aproximadamente 16 graus sul.
Para ele, essa evidência científica, feita por um especialista da frota, era mais confiável do que relatos subjetivos como a carta de Pero Vaz de Caminha.
A Pista das 500 Léguas
Lenine Pinto destacou ainda que a frota de Cabral teria navegado cerca de duas mil milhas (quinhentas léguas) ao longo da costa. O que reforçaria a hipótese de que os padrões de posse (marcos de pedra) foram erguidos em Touros (RN) e Cananéia (SP).
Essa extensão coincidiria com a parte do território que cabia a Portugal, segundo o Tratado de Tordesilhas - 1494 (aquele que todos estudamos nas aulas de história mas nunca demos a menor importância). O tratado estabeleceu uma linha imaginária a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, dividindo o mundo entre Portugal e Espanha. O Brasil, descoberto em 1500, ficava a leste dessa linha, no território português.
A expedição de Cabral teria tido, portanto, o objetivo não só de chegar às Índias, mas também de confirmar e demarcar a posse de terras dentro da zona portuguesa.
Se as 500 léguas fossem contadas a partir de Porto Seguro, a frota teria chegado até perto da Patagônia. Algo que não aparece em nenhum relato histórico.
Porto Seguro x Touros
A tese sugere, então, que Porto Seguro foi, na verdade, um ponto estratégico: baía tranquila, bom porto natural, ideal para a primeira missa e o encontro simbólico com os indígenas. Mas os verdadeiros marcos de posse, aqueles que cumpriam o papel político e geográfico da viagem, teriam sido erguidos em Touros e em Cananéia
Aos poucos, a versão que aprendi na escola começou a se desmanchar. Porto Seguro pode ter sido o palco perfeito para a narrativa oficial. Já Touros, guarda em uma pedra simples e quase esquecida, a marca de uma história que me soa bem mais convincente.
Não estou interessado em reescrever a História, até porque isso pouco ou nada mudaria hoje. Mas, considerando o cenário atual do país, nunca é demais observar os dados revelados pelos estudiosos e refletir se ela, a História, por acaso, já não foi reescrita.
Embora o consenso historiográfico reconheça Porto Seguro como o local oficial da chegada, a hipótese potiguar continua viva em pesquisas recentes e ganha força como elemento de identidade cultural e turística do Rio Grande do Norte.
No fim das contas, talvez a dúvida nem seja onde Cabral aportou, mas sim onde o Brasil começou a se especializar em versões oficiais criativas para atender aos interesses dos envolvidos.
Obrigado por ler ate aqui!
Até a próxima!
Fabior
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