Total de visualizações de página

Comments

Header Ads

Todos os Caminhos Levam a Roma?


Ganhei de presente de um primo o livro Todos os Caminhos Levam a Roma, que narra a conversão do casal Scott e Kimberly Hahn do protestantismo (presbiteriano) ao catolicismo romano.

Como protestante, me interessei em saber o que os levou a dar um passo tão radical e, confesso, um tanto desconcertante. Afinal, o que poderia fazer um pastor reformado, estudioso das Escrituras, abandonar convicções tão profundamente enraizadas na Palavra de Deus?

Logo percebi que não se trata de uma história de rebeldia, mas de busca. O casal Hahn parece movido por uma fome genuína de verdade e coerência. Sua dedicação à teologia e à exegese bíblica é notável. 

O livro, nesse sentido, é honesto e tocante. Um relato de quem ama a Bíblia, mas acabou convencido de que ela por si só não bastava.

E é justamente aí que o leitor protestante começa a franzir a testa.

Motivações (algumas delas). 

Além das questões teológicas centrais, que veremos a seguir, o relato dos Hahns revela motivações mais amplas, intelectuais, históricas e até emocionais que os conduziram à fé católica.

São argumentos sinceros, muitas vezes belos, mas que, à luz da Escritura, me parecem um tanto frágeis e insuficientes para justificar o abandono dos princípios da Reforma.

O impacto dos Pais da Igreja

Scott Hahn mergulhou nos escritos dos primeiros cristãos, conhecidos como Pais da Igreja, como Irineu, Justino Mártir e Agostinho e ficou surpreso com o quanto eles pareciam “católicos”. Em seus textos, ele encontrou menções à Eucaristia, à tradição e à sucessão apostólica, o que o fez acreditar que o cristianismo das origens já trazia a estrutura da Igreja Católica em sua base.

Comentário: Ler os Pais da Igreja é realmente enriquecedor. Eles ajudam a entender como a fé cristã se desenvolveu nos primeiros séculos. Mas é importante lembrar que eles não falavam todos a mesma língua teológica. Havia diferenças de ênfase, de contexto e até de doutrina.

Muitos desses autores destacavam a graça de Deus e a suficiência da cruz de Cristo, sem o sistema sacramental que só seria consolidado séculos depois em Roma.

A leitura dos Pais da Igreja levou Hahn a ver uma continuidade entre o cristianismo antigo e o catolicismo moderno. Mas essa leitura esquece que os escritos patrísticos são diversos e não têm a mesma autoridade das Escrituras inspiradas, que permanecem como o verdadeiro padrão da fé.

O desejo de unidade e autoridade visível

Scott via o mundo protestante fragmentado em milhares de denominações e começou a se perguntar se essa divisão poderia realmente refletir a vontade de Cristo por uma Igreja única.

A figura do Papa, como autoridade visível e unificadora, lhe pareceu a resposta ideal para esse impasse.

Comentário: A unidade é um valor precioso, mas não pode ser confundida com uniformidade institucional.

A multiplicidade de denominações pode parecer um escândalo à unidade, mas a verdadeira unidade cristã é a fidelidade ao Evangelho, não a submissão a uma hierarquia. É o Espírito quem mantém a Igreja una e não uma estrutura visível.

A dimensão pessoal e emocional

Há também um aspecto humano marcante. Depois de anos de debates teológicos e uma vida acadêmica intensa, a conversão trouxe aos Hahns um senso de estabilidade e pertencimento.

A Igreja Católica representou para eles uma “casa histórica”, uma tradição viva e acolhedora.

Comentário: Esse sentimento é compreensível e até bonito, mas espiritualmente perigoso.

Quando a fé busca segurança em uma instituição, corre-se o risco de deslocar o centro da confiança: de Cristo para a Igreja. A verdadeira paz não está na estabilidade da tradição, mas na suficiência da graça.

As Questões Doutrinárias

Depois dessas motivações mais amplas, vêm as bases teológicas que sustentam a conversão. E é aqui que as divergências ficam mais evidentes.

A Queda da Sola Scriptura

Um ponto decisivo na jornada dos Hahns é o questionamento da doutrina da Sola Scriptura (Somente a Escritura).

Scott relata que seus estudos o levaram a crer que a própria Bíblia aponta para uma autoridade viva, o Magistério e a Tradição, para interpretá-la.

Comentário: A Sola Scriptura não rejeita a tradição nem o ensino da Igreja; apenas afirma que somente as Escrituras são infalíveis.

A autoridade eclesiástica é legítima, mas sempre subordinada à Palavra inspirada. Quando Scott argumenta que a Bíblia exige uma autoridade externa para interpretá-la, surge um dilema inevitável: onde a própria Bíblia ensina isso?

Em Atos 17:11, os bereanos são elogiados por conferirem tudo nas Escrituras, não por recorrerem a uma autoridade magisterial.

O problema que inquietava Scott talvez não fosse a insuficiência da Bíblia, mas a diversidade das interpretações humanas. E, para resolver essa tensão, ele acabou confiando não na clareza da Palavra, mas na voz de uma instituição.

A Bíblia, porém, continua sendo nosso mapa e bússola. Clara, suficiente e viva.

Justificação: Graça ou Cooperação?

Scott e Kimberly também lutaram com a doutrina da Sola Fide (Somente pela Fé). 

Eles afirmam ter encontrado no catolicismo uma fé mais “completa”, que une fé e obras no processo de salvação.

Comentário: A Sola Fide não é convite à passividade, mas confissão de dependência total.

As boas obras são consequência da fé, não seu complemento.

“Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8-9)

Cristo não iniciou a salvação para que nós a completássemos; Ele a consumou de uma vez por todas. (João 19:30)

Quando a fé vira esforço para “fazer o suficiente”, o Evangelho perde sua essência: a graça deixa de ser dom e volta a ser tarefa.

O Centro do Culto: Memorial ou Sacrifício?

Como teólogo reformado, Scott Hahn sempre valorizou a teologia da aliança, a ideia de que Deus se relaciona com o ser humano por meio de promessas e pactos. Ao conhecer a Missa, ele passou a enxergá-la como o “banquete da nova aliança”, o cumprimento das antigas promessas feitas no Antigo Testamento e o coração da adoração cristã.

Essa descoberta o fascinou e se tornou o novo eixo de sua compreensão da fé. Hahn passou a ver na Eucaristia não apenas um símbolo, mas o próprio sacrifício de Cristo tornado presente novamente, como um eco da adoração celestial descrita em Hebreus e no Apocalipse.

Comentário: A liturgia católica é, sem dúvida, bela e cheia de significado. Mas, ao interpretar a Eucaristia dessa forma, Hahn confunde o símbolo com a realidade que ele representa. O pão e o vinho apontam para o sacrifício da cruz,  eles não o repetem.

O Novo Testamento ensina que o sacrifício de Cristo foi feito “uma vez por todas” (Hebreus 10:10-14). A Ceia do Senhor é memorial e proclamação e não renovação.

“Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19).

O Evangelho não nos convida a participar de um sacrifício contínuo, mas a celebrar o sacrifício completo que nos tornou livres.

Quando o rito passa a ocupar o lugar da fé, o símbolo deixa de servir à verdade e começa a substituí-la. A adoração cristã é centrada em Cristo e na Sua obra consumada, não em um altar que precisa torná-la presente novamente.

Conclusão

Todos os Caminhos Levam a Roma é uma leitura sincera e provocante.

Mesmo discordando de suas conclusões, é impossível não admirar a honestidade intelectual e a coragem espiritual dos Hahns. Mas, ao fim, o que os convenceu não me convence.

Suas respostas, embora belas, parecem buscar segurança onde a fé foi chamada a descansar, ou seja, na graça suficiente de Cristo. 

Sob a lente da Sola Scriptura, seus argumentos soam como tentativas humanas de resolver o mistério da fé com as certezas da instituição.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim..." João 14:6..

Pode até ser que todos os caminhos levem a Roma ? Mas não está escrito que Roma é o caminho, a verdade e a vida. 

Cristo é o único caminho que, de fato, leva à Deus Pai e à vida eterna. E Ele é suficiente!

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

Postar um comentário

0 Comentários