Não sabia.
No início, a história até embala. Animais explorados se levantam contra seus opressores. O discurso é simples, justo, difícil de contestar. Eles trabalham, produzem, sofrem e quase nada recebem. Quando os humanos são expulsos, a vitória parece moralmente incontestável. É impossível não torcer.
O incômodo começa depois. Sem violência, mas com organização. Os porcos assumem a liderança porque “entendem mais”, porque “sabem ler”, porque “pensam estrategicamente”. A princípio, não tomam o poder, mas são empurrados a ele, em nome do nobre ideal de entregar ao poder à alguém de seu próprio meio. Quem questionaria?
A partir daí, a revolução não é mais sustentada por fatos, mas por discurso.
Quando a comida é racionada, a explicação vem bem embalada. Quando os números não batem, eles são reinterpretados. Quando alguém desaparece, a narrativa é ajustada. Nada é negado frontalmente. Tudo é recontextualizado. O problema nunca é o que aconteceu, mas como você entendeu o que aconteceu.
“Todos os animais são iguais” vira um slogan.
“Alguns são mais iguais que outros” vira um detalhe técnico, explicado por um especialista convidado.
Parece familiar para quem já ouviu que indicadores econômicos “nunca foram tão bons”, mesmo com o carrinho do mercado cada vez mais vazio. Ou para quem já escutou que determinadas decisões “dolorosas, porém necessárias” seriam sentidas apenas no curto prazo. Um curto prazo que, curiosamente, parece não acabar nunca.
As paredes do celeiro mudam e ninguém percebe quando foi que mudaram. Não porque os animais sejam burros, mas porque estão cansados. Trabalham demais para vigiar palavras. E aqui Orwell começa a sair do papel.
Hoje, os mandamentos não estão escritos em tinta. Estão nas redes sociais. Em manchetes. Em vídeos curtos, repetidos à exaustão. A verdade não precisa ser apagada, basta ser soterrada por versões, recortes e opiniões travestidas de fatos. O malfadado "Entenda como isso é bom".
No Brasil, isso costuma vir com linguagem técnica demais para o cidadão comum e simples demais para ser questionada. Gráficos coloridos (com eixo invertido, quando convém), discursos bem treinados, frases de efeito que cabem em um post, mas não sobrevivem a uma pergunta fora do roteiro.
A tecnologia entra como acelerador. O algoritmo não quer verdade; quer engajamento. E nada engaja mais do que medo, raiva e pertencimento. Assim, o discurso vai sendo calibrado. Simplificado. Polarizado. Transformado em slogans.
Enquanto isso, os porcos prosperam. Não apenas porque mentem, mas porque controlam os canais. Eles definem o tom, a pauta, o enquadramento. Cercam-se de cães de aluguel, de militância, de perfis coordenados sem contar os defensores comprados.
No cenário brasileiro, isso se manifesta quando o debate deixa de ser sobre fatos e passa a ser sobre quem está falando.
O mais perverso é que nada disso parece autoritário à primeira vista. Pelo contrário: tudo vem com estética de modernidade, linguagem inclusiva, sinalização de virtude e discursos de proteção e progresso.
Quem discorda não é um opositor, é um problema. Um desinformado. Um fascista. Um risco à estabilidade e à democracia. É alguém que promove discurso de ódio!
O argumento não precisa ser refutado; basta descredibilizar o mensageiro. O rótulo vem antes da análise. E funciona.
E assim, a revolução vira marca. Vira narrativa oficial. Vira produto.
No final do livro, os animais olham pela janela e já não distinguem os porcos dos antigos donos da fazenda. Hoje, muitas vezes, nem janela é necessária. Basta rolar a tela. Alguns rostos mudam, os slogans se atualizam, mas o jogo continua o mesmo: concentração de poder, controle da linguagem e uma multidão exausta demais para checar o que mudou desde ontem.
Em um país acostumado a promessas cíclicas de salvação, isso ganha contornos ainda mais delicados. A memória curta ajuda. A polarização acelera. E a sensação constante de crise faz com que qualquer narrativa minimamente organizada pareça melhor do que o caos.
A Revolução dos Bichos não é atual porque fala de política. Ela é atual porque fala de comunicação. De como quem controla o discurso controla a realidade percebida. De como a verdade não precisa morrer, só precisa perder alcance.
Talvez o maior mérito de Orwell tenha sido mostrar que a opressão mais eficiente não é a que silencia, mas a que explica demais. A que fala sem parar. A que ocupa todos os espaços até não sobrar tempo, energia ou coragem para pensar.
Não sei quando a ficção virou espelho. Só sei que, depois dessa leitura, fica claro que a fazenda nunca deixou de existir. A diferença é que agora, além do discurso, os porcos passaram a remunerar muito bem aqueles que, cumprem um papel informal de assessoria de imprensa e ajudam a propagar suas narrativas e a impulsionar sua publicidade. Tudo isso, claro, sem perder aquela linguagem institucional e uma impressionante capacidade de parecer normal.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

0 Comentários