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Entre o Risco e o Chamado

Raramente eu lembro dos sonhos que tenho. 

Apenas sei que sonhei e que foi algo bom ou algo ruim. Mas essa semana sonhei algo sombrio e, mesmo já tendo passado alguns dias, ainda me lembro claramente.

Não havia confusão ou aqueles absurdos comuns em sonhos. Nada surreal demais. Eu procurava um túmulo específico num cemitério. Não sei o motivo, só sei que eu tinha plena consciência do que estava procurando. Ao redor, tudo era organizado, quase administrativo. Perto de mim, um tipo de mapa mostrava quadras, ruas internas e cruzamentos, como se até a morte precisasse de urbanismo.

O tal mapa dizia que o túmulo que eu procurava ficava no entroncamento da rua N com a rua A. Nome de letra e um aviso quase solene pairando no ar: é aqui que termina tudo aquilo que você não resolveu.

Era pra ser um jazigo de família. Mas estranhamente havia apenas um nome visível: ANA. Foi o que consegui ler enquanto me aproximava. Não sei quem era Ana. Talvez alguém real. Talvez ninguém. Talvez só um nome para algo que já se perdeu.

Antes que eu pudesse pensar melhor, como num piscar de olhos, fui transportado para dentro do mausoléu.

Não houve violência. Foi apenas rápido, indolor, quase respeitoso.

Curiosamente, lá dentro não era escuro. Havia uma penumbra contínua, sustentada pelo mínimo de luz que entrava através de algumas frestas que a porta de entrada deixava. Só o suficiente para não ter dúvidas: Eu sabia onde estava e podia ver.

E vi caixões alojados em suas respectivas gavetas. Todos cobertos por uma espessa camada de poeira. As alças já nem pareciam metálicas. Tinham a aparência de algo que um dia foi firme, mas cedeu ao tempo. E nada ali denunciava morte recente, só um abandono prolongado.

E eu estava ali. Não havia pânico, nem desespero. Pelo contrario, havia silêncio e eu me sentia estranhamente acomodado, tentando dar algum significado além do que só a poeira dava forma.

Mas estava vivo. Vivo o bastante para notar esses detalhes e consciente o bastante para entender onde estava. Mas o que mais me incomodava nem era o túmulo em si. Eram as perguntas na minha cabeça: se estou vivo, que tipo de morte é essa? Se estou vivo, o que eu estava fazendo naquele lugar?

Acordei com a sensação de que o sonho não falava de fim repentino e explosivo, mas sim de processo, de desgaste, de corrosão lenta.

Ferrugem.

Daquelas que não fazem barulho, nem quebram de uma vez. Mas que vão tirando o brilho, a convicção, o sentido.

Dias depois, numa visita à minha mãe, ela me olhou com aquele olhar que atravessa defesas sem pedir licença e disse que eu andava muito cabisbaixo. E, sem dramatizar, falou algo simples demais para ser ignorado:

“Deus está mandando eu te dizer que você deve continuar, porque ainda tem vida aí.”

Nada de discurso, nem explicação.

Foi ali que tudo se encaixou. Num timing perfeito demais pra ser só coincidência.

O sonho mostrava o risco: estar vivo, lúcido, criativo — mas vivendo num lugar que não foi feito para quem ainda respira.

A palavra revela o chamado com precisão cirúrgica: ainda há vida aí! Logo, ainda não é hora de deitar.

Talvez o verdadeiro perigo nunca tenha sido o pecado escandaloso, o colapso visível ou a desistência declarada. Talvez o risco real seja esfriar devagar, a esperança continuamente adiada, a poeira se acomodando e se tornando parte da decoração. O viver como quem já se acomodou no mausoléu, guardando um lugar para a hora do descanso final.

Mas há uma verdade simples que permeia tudo isso: Um túmulo não foi feito para vivos.

Talvez o sonho não tenha sido um aviso. Talvez tenha sido um estranho convite à lucidez. Afinal, perceber que estar vivo ainda, num lugar feito para os mortos, seja a ultima chance de sair andando.

Quem está vivo… se incomoda.

E talvez esse incômodo seja graça. Talvez seja um alerta. Talvez seja exatamente aquilo que nos mantém de pé quando a ferrugem e a poeira tentam convencer a gente de que já é tarde demais.

Porque enquanto há percepção, enquanto há incômodo e enquanto houver alguém que olha pra você e diz “continua”… 

… é porque ainda tem vida aí.

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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