Trabalhei alguns anos com o Mário.
Que Mário? Bem, você já deveria saber que isso não é pergunta que se faça..
Mário era daquele tipo de cara que, com certa frequência, acaba se tornando alvo de brincadeiras de colegas sem noção. Qualquer história engraçada ou que fosse motivo de algum tipo de vergonha, acabava sempre apontando para o nome dele. Não era bullying e nem era de graça. É que, de vez em quando, ele dava motivos mesmo. Mas ele sempre lidou muito bem com isso e fazia uso de uma expressão que, só depois de muito tempo, passei a dar o devido valor: "Vai assombrar outro!"
Eu o vi utilizar essa expressão algumas vezes em outros contextos e o fazia no mesmo tom de quem pede a conta num boteco. Sem raiva. Sem culpa. Com a serenidade de um monge que não tem tempo a perder.
E qual não foi minha surpresa ao perceber que, depois de tanto tempo, essa expressão ainda tem feito algum sucesso em meus novos círculos sociais. Não por acaso é que estou escrevendo sobre isso. Estou aproveitando o hype!
Dizem que verbalizar o que sentimos é (ou pode ser) libertador. Que as palavras certas no momento certo têm poder terapêutico, transformador, sagrado até.
Pesquisas recentes do Institute for Paranormal Disturbance Studies, revelam que 78,2% dos conflitos interpessoais poderiam ser encerrados em menos de três segundos com o uso criterioso dessa expressão. Os outros 21,8% envolvem as mães que, por motivos óbvios, estão fora do escopo do estudo.
É por isso que gosto de pesquisar antes de escrever sobre algo. É necessário dar um pouco de credibilidade ao texto, mesmo que se trate de uma completa galhofa.
E foi pesquisando que descobri que, não é de hoje que a humanidade busca esse tipo de solução para tentar colocar um fim imediato a conversas inconvenientes, inoportunas ou pouco produtivas.
Os espanhóis, por exemplo, desenvolveram o "vete a freír espárragos" - vai fritar aspargos. A lógica era a seguinte: fritar aspargos demora mais que cozinhar. Mandar alguém fritar era, portanto, mandá-lo embora por mais tempo.
Os franceses, fiéis à própria reputação, optaram por algo mais doméstico: "va te faire cuire un œuf" - vai cozinhar um ovo. Na prática, é o que um pai francês diz ao filho quando quer mostrar que está irritado sem partir para grosseria. Familiar, mas não chulo.
Já os ingleses dizem: "Sod off", viram as costas e vão tomar chá. Esse é direto, sem cerimônia. E tem vários significados bem parecidos: vai embora / me deixa em paz / vai encher o saco de outro / some daqui.
Enquanto pesquisava como outras culturas praticam o "passa fora", me lembrei do Peter Lox. Um belga da Swift (a rede mundial de bancos, não a de carnes), que passou um tempo em São Paulo. Me incumbiram de acompanhá-lo por alguns dias numa implantação que ele fazia e eu ficava tentando ensinar palavras e expressões em português para ele. Eu ria porque ele sempre respondia do mesmo jeito: Can I say it to my boss ?? - Posso dizer isso pro meu chefe ??
Bem diferente do Mário, que sempre parecia leve. Como se tivesse descoberto algo que ninguém percebia: energia negativa só se dissipa quando redirecionada.
Eu, por outro lado, desenvolvi uma técnica diferente. Não tão eficaz, porém mais discreta.
Digo "vai assombrar outro" com muita frequência... em pensamento.
No chuveiro. No trânsito. Às vezes às duas da manhã, reencenando alguma conversa que aconteceu há mais de três anos com alguém que provavelmente não dá a mínima pra mim.
Mentalmente, sou devastador. Tenho timing perfeito, voz firme e nenhum arrependimento.
Na vida real, porém, é bem diferente. Existe um freio. Um único, mas eficiente: a memória de que a vida é uma roda gigante.
Eu chamo de administração de risco. A minha mãe acha que é educação. Já o Mário... bem, ele provavelmente me chamaria de frouxo.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

3 Comentários
Vai assombrar outro” entrou facilmente pra minha lista de formas educadas, ou quase, de dizer: passa reto, me erra, sai fora. Amei 💙
ResponderExcluirSo proud of you. Mas confessa que voce ama me assombrar entao vao fritar aspargos
ResponderExcluirVenho aqui, oficialmente, confirmar: o Mário sou eu.
ResponderExcluirE, infelizmente para a minha defesa, é tudo verdade. kkkkk
Fiquei muito feliz com o texto. “vai assombrar outro” sempre foi uma filosofia de vida. kkkk
O detalhe é que não basta falar o termo. Tem que vir com entonação, expressão facial, movimento das mãos e todo o pacote dramático. Aí sim funciona. kkkkk Principalmente quando chama de frouxo.... kkkk