– “Êêêêêê, vida boa hein? Só passeando!! Não tem uma boquinha dessa pra mim lá, não ?”.
Digo “temos”, porque eu mesmo já disse isso. Mas percebi que só quem faz essas viagens, sabe a responsabilidade pelo trabalho a ser feito e as dificuldades que compreendem esse tipo de situação. Alguns gostam e tiram mais ou menos proveito, depende. Sempre é possível tirar algum proveito, nem que seja apenas ter assunto para escrever um pouco sobre o que se viu ou viveu.
No meu caso, as coisas aconteceram tão rápido que mal tive tempo de organizar as ideias e escrever “in loco” algo sobre os locais que visitei. Consegui apenas anotar alguns detalhes naqueles bloquinhos de recados de hotéis e é baseado nessas anotações que escreverei um pouco sobre essa jornada pelas nove cidades que tive oportunidade de visitar em menos de 1 mês.
Tudo começou numa segunda-feira 17/03. Acordei às 4h da manhã. Tinha um voo às 6h30 em Congonhas. Eu estava tenso e um pouco ansioso. Afinal, eu tinha meio que um desafio pela frente. Ao acordar, percebi que havia algo errado. A luz que eu havia deixado acesa na noite anterior estava apagada. Meio confuso levantei e tentei acender a luz do banheiro. Nada! Chuveiro? Nada. Estava chovendo. Analisei as possibilidades e constatei: “Cabô a luz!”. E tomei banho frio e no escuro mesmo. Fazer o que?
Mas, o banho era apenas um dos problemas. Havia problemas maiores como fazer a barba, por exemplo. Tentei recorrer ao celular para iluminar alguma coisa, mas a cena no espelho era bizarra. Um ser sombrio e mal encarado com um celular numa mão e um barbeador na outra. Tive sorte por não ter arrancado as sobrancelhas. Isso sem falar na dificuldade em encontrar as roupas certas para vestir. Meio puto, tentei ao menos sair de casa vestido com um pouco de decência e não esquecer nada.
Não gosto de aviões. Menos pelos aparelhos em si e mais pelos acontecimentos recentes no setor aéreo. Nada que me faça entrar em pânico, apenas desconfortável. E foi assim, desconfortável e mal humorado que embarquei para o Rio de Janeiro, meu primeiro destino.
Mas se tem uma coisa que vale o desconforto é, minutos após a decolagem, voar sobre um tapete de nuvens, contemplando o sol brilhando num céu limpo e azul. Em questão de minutos parece um outro dia e um outro lugar.
Pousei no Santos Dumont. Também não gosto desse aeroporto. Pista curta, água por todos os lados e pouso desconfortável. Passei o dia no Rio e não vi a cara do sol. Já disse, não tive tempo de ver muita coisa. Trabalhei o dia inteiro e a única oportunidade que tive de ter certeza que estava mesmo no Rio de Janeiro foi no caminho de volta para o Aeroporto. Desta vez o do Galeão. Consegui ver algumas das principais paisagens do Rio como o Pão de Açúcar e a Ponte Rio Niterói.
Não gosto dos taxistas cariocas. E não é sem motivo. Experiências anteriores e depoimentos de outros cariocas, me levaram a considerá-los "os malandrões, espertões", sempre procurando um jeito dar “uma volta” nos passageiros.
Entrei no táxi desconfiado e receoso por saber que, para chegar ao Galeão teria que passar pela Linha Vermelha que, até pouco tempo atrás, era notícia certa no Jornal Nacional, por causa dos arrastões e da guerra entre os traficantes e a polícia.
– Aeroporto do Galeão, por favor. – Anunciei discretamente, tentando disfarçar o sotaque de paulista. O rapaz perguntou que horas era o meu voo e informou que o trânsito não era bom naquele horário. Meu voo era às 20h30 e eram aproximadamente 18hs ainda. Havia tempo.
– Vai na boa aí merrmão. – Respondi.
Contrariando minhas expectativas, o taxista era “maneiro” e de boa conversa. Falamos sobre os problemas recentes do Rio, principalmente a dengue, as milícias e os tiroteios na Linha Vermelha, que citei a pouco e ele me contava as impressões honestas e realistas de quem vive esse dia-a-dia e é diretamente afetado por eles. Mostrou-me o lugar em que geralmente aconteciam os tiroteios na Linha Vermelha, me mostrou também o Complexo da Maré (de longe, é claro) e a Avenida Perimetral.
Cheguei no aeroporto uma hora e meia antes do voo que deveria sair às 20h30. Disse “deveria” porque atrasou e foi sair quase 21h30. Assim sendo, passei o tempo andando pelo aeroporto olhando as lojas e procurando algo para comer.
Também não gosto muito do aeroporto do Galeão, me lembra a rodoviária do Rio, parece meio bagunçado, sujo, sei lá, é só uma impressão.
Na época em que esses aeroportos foram construídos não havia laptops e celulares e, sendo assim, é difícil, nos dias de hoje, encontrar uma tomada na sala de embarque para carregar o celular. Praticamente todas estão ocupadas por pessoas com seus laptops.
Finalmente às 21h30, chamada para embarque. A partir daí uma sucessão de fatos interessantes aconteceram.
Estava eu aguardando na fila do portão de embarque quando uma mulher me perguntou se aquele era o voo com destino a Belo Horizonte. Respondi educadamente que sim e continuei mergulhado em meus pensamentos e na minha irritação causada por todo aquele atraso.
Quando se tem lugar marcado nos últimos assentos, a entrada no avião é meio demorada. É necessário esperar as que as pessoas que tem lugar marcado nos primeiros assentos guardem seus pertences no compartimento acima dos bancos e se acomodem.
Durante esses 10 a 15 minutos entre o portão de embarque e a porta do avião a mulher, ou melhor, a Dil ou Diu, sei lá (era esse seu nome), voltou a puxar assunto. Disse que era de Campo Grande (MT) e que morava em Aracaju há dez anos mas não estava feliz lá. Disse que estava pensando em voltar para a casa da mãe em Campo Grande e que já tinha até o consentimento dela para isso. Disse que tinha ido para Aracaju e aberto um negócio com a irmã que acabou falindo. A irmã foi embora para Goiás, abriu um restaurante e está se dando bem até o momento. Ao saber que eu era de São Paulo, disse que sonhava em conhecer a 25 de Março e que, se caso eu fosse para Aracaju, ela teria o maior prazer em me mostrar a cidade. De quebra, ainda pediu meu MSN, que eu educadamente disse não ter para evitar maiores problemas. Devia estar carente ou talvez sinta atração por homens da marinha. Não é o meu caso, evidentemente. Mas, depois da informação sobre o voo, a primeira pergunta que ela me fez foi se eu era da marinha. É que eu usava uma camisa azul e, talvez, isso tenha atiçado a imaginação dela. Minha sorte é que a poltrona dela era 5A, bem na frente. Vi bem quando ela me mostrou o cartão de embarque. A minha era 16A bem longe. Isso me poupou de uma falação ininterrupta de 1 hora até Belo Horizonte. Acredito não ser necessário trazer mais detalhes sobre a Dil ou Diu, não sei. Ela já está imortalizada neste texto e, pelo que conheci dela, já é mais do ela merece.
Neste voo, além da Dil ou Diu, vai saber… também estavam o John e a Fernanda Takai, do Pato Fu. Ambos com cara de cansados, mas sorrindo de forma simpática para aqueles que os reconheciam.
E, para finalizar a sucessão de fatos, havia ainda uma criança num dos primeiros assentos que começou a chorar bem na hora que o comissário passava as instruções de segurança. O choro era captado pelo microfone e amplificado por todo o avião o que deixou a comissária um pouco desconcertada e causou risos por todo o avião.
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