Tiradentes, 20 a 22 de abril 2015
Esta é uma das raras vezes que escrevo do local em que estou. Em poucas horas estarei pegando a estrada de volta para São Paulo. Serão quase 600km de asfalto pela frente. Para manter o hábito, quero registrar neste diário de viagem um pouco do que vivi e dos pensamentos que me assaltaram ao longo destes dias.
O fato é que havia mais de sete anos que eu não visitava Tiradentes. Desde que conheci a cidade (em 1997), nunca havia ficado tanto tempo longe.
Apesar disso, esperava encontrar a cidade mais ou menos do mesmo jeito que deixei na última vez que a vi. No entanto, confesso que fiquei surpreso e um tanto quanto decepcionado.
Muita coisa mudou. Não no patrimônio histórico, obviamente, mas na essência da cidade. Boa parte do comércio do centro histórico está diferente. Nos arredores, houve uma grande expansão comercial. Muitos dos terrenos cobertos de mato viraram grandes lojas, restaurantes e pousadas. Me pareceu uma cidade mais madura, crescida, profissional e com interesses mais ambiciosos.
Tive a impressão que o romantismo presente no colorido do casario, no estilo das igrejas e no apito da Maria Fumaça parece estar dando lugar à uma intenção mais comercial e ambiciosa. E um ar de modernidade parece ter começado a sair dos interiores da pousadas e das lojas para fazer parte da atmosfera da cidade.
Foi uma impressão que, honestamente, acabou abalando minha relação com ela (a cidade). Parecia um típico reencontro de amigos que não se veem há muito tempo e, de repente, percebem que já não têm mais tantos assuntos em comum, perdem a naturalidade e não sabem muito bem o que dizer e nem como se comportar.
Mas há novidades positivas também. Algumas das principais igrejas da cidade foram restauradas e ganharam nova iluminação, atraindo a atenção dos turistas também à noite. Outras estão fechadas e em processo de restauração. Gosto muito de ver o patrimônio histórico sendo preservado. Só fiquei chateado com o Chafariz, que está um pouco abandonado. Quem sabe não seja ele o próximo da lista de restaurações? Tomara.
Foi uma estadia curta esta em Tiradentes. Três dias apenas. E o tempo, senhor de si, é sempre indiferente à nossa pressa, necessidades ou lista de afazeres. Então, é necessário agir e fazer o que tem que ser feito, da melhor maneira possível. E foi o que fiz.
Isto posto, seguirei esta narrativa com a ordem cronológica dos eventos desta jornada.
20/04
Passei boa parte do dia na estrada e da tarde reencontrando familiares.
Quando a noite chegou, saí para ver a nova iluminação de algumas igrejas que haviam sido restauradas. Desde que passei a me interessar por fotografia, tinha vontade de fazer umas fotos diferentes da cidade com uma boa câmera e com os conhecimentos que adquiri desde minha última passagem por lá.
Então, levei a câmera e fiz alguns cliques. Nada muito impressionante. Mas acabei parando no adro da Igreja Matriz de Santo Antônio. Havia uma apresentação musical lá. Uma cantata, acho. Fiquei algum tempo observando o movimento.
21/04
Meu primo (já citado no texto Andanças), continua trabalhando como guia turístico local, mas agora com sua própria agência. A Caminhos e Trilhas. E me convidou para conhecer seu mais novo passeio: Becos e Bosques. Como já havia um grupo formado e prestes a sair, eu, claro, fui junto.
Mal comecei a caminhar quando um pequeno incidente quase estragou meu dia, meus planos e meu humor, que já não é lá essas coisas.
Eu havia acabado de preparar a câmera: bateria, lentes e cartão de memória checados. Alça nova, um modelo que distribui o peso da câmera no ombro e não no pescoço, como as originais de fábrica, que deixam o sujeito corcunda depois de algumas horas fotografando. Tudo certo. Porém, logo nos primeiros passos, a câmera soltou-se do suporte, e caiu sobre as centenárias pedras do calçamento conhecido como pé de moleque.
Senti um frio percorrer a espinha e, sem entender o que tinha acontecido, soltei um retumbante P… que pariu!! Não sei se chamei a atenção ou se alguém olhando, nem pensei nisso.
Recolhi a câmera do chão torcendo para que tudo estivesse no lugar. Examinei-a com cuidado e fiquei feliz em ver que tudo estava em ordem, pelo menos externamente.
Com o sangue ainda gelado, liguei a câmera e ela respondeu. Fiz mais alguns testes, verificando se todos os mecanismos estavam funcionando corretamente. Tudo OK.
Aliviado, coloquei a alça original na câmera e finalmente comecei o meu passeio guiado. Não sem antes alcançar o grupo que já seguia bem a frente.
Mais tarde eu iria descobrir o que fez a câmera se soltar.
O Becos e Bosques do meu primo foi um interessante e divertido "city tour" que foge um pouco do lugar comum para apresentar alguns dos misteriosos e, às vezes, despercebidos becos que a cidade possui, sem deixar de lado os principais pontos de interesse e sempre com uma abordagem histórica e bem humorada.
Embora eu conhecesse praticamente todo o roteiro, me faltava o contexto histórico e as lendas que envolviam cada um daqueles lugares. Super interessante e recomendado!
Depois do almoço, saí para um outro tour. Um que eu nunca havia feito. De carro, na serra. Pelo que percebi, é uma região onde são feitos passeios contratados à cavalo ou bicicleta. E eu que achava que conhecia tudo por lá. A gente nunca sabe tudo.
22/04
A cidade amanheceu vazia, tranquila e sem turistas. Um dia comum em sua pacata rotina. Tomei café da manhã e saí sozinho, caminhando e clicando e seguindo a canção. Praticar nunca é demais. Principalmente quando o cenário favorece.
Visitei praticamente todos os lugares que conheço e onde era possível chegar a pé. Desde a estação até a Igreja da Santíssima Trindade.
Depois do almoço, fiz outro passeio até uma cidade vizinha, conhecida como Bichinho. Distante 7km de Tiradentes. Tudo quieto e vazio por lá. Muitas lojas de artesanato mas a maioria fechada. É o que acontece quando não há movimento de turistas. Fora isso, nada muito digno de nota.
Depois de um breve descanso e um café, resolvi aproveitar os últimos minutos de luz do dia e corri para o meu lugar favorito na cidade; o alto da igrejinha de São Francisco, onde gosto de pensar na vida enquanto o sol desaparece por detrás da serra. É um pedacinho de Tiradentes que aprendi a gostar desde a primeira vez que ali estive.
O sol já havia dado seu último suspiro e a serra de São José ganhava contornos cada vez mais escuros. Alguns metros à minha esquerda, um rapaz controlava, pelo celular, um drone Dji Phantom que mal podia ser visto, a não ser pelas luzes de localização. Fui puxar assunto. Queria saber como aquilo funcionava. Como ele controlava um drone tão distante e quase no escuro? Ele me explicou que, na verdade, o drone fazia um voo autônomo. Seguindo as coordenadas pré-definidas e que, uma vez cumpridas ou ao sinal de bateria fraca, retorna automaticamente para o ponto de partida. Enquanto isso, ele apenas acompanhava pelo celular as imagens transmitidas em tempo real pelo aparelho.
Pensei comigo: “Faz tudo isso sozinho? Só acredito vendo”. E fiquei lá, como um papagaio de pirata, vendo o que acontecia no celular do moço. E não é que era tudo verdade mesmo?
Fiquei pensando nas fotos e vídeos que eu poderia fazer se tivesse um daqueles. Pesquisei rapidamente aqui. Nada que uns R$ 8000 não compre. Então, se um dia você quiser me dar uma lembrancinha dessas de presente de aniversário, fique a vontade. Vou ficar muito feliz e com certeza não direi a famosa frase: “Ah! Mas não precisava.”
Enquanto escrevia sobre o drone, acabei sendo levado de volta aos pensamentos que deram início a este texto. A vista da cidade hoje, é praticamente a mesma de dezenove anos atrás, mas tudo parecia diferente, modernizado e maior. A sensação de estar numa cidade que parecia ter parado no tempo e desfrutar daquela atmosfera simplesmente desapareceu. O que me fez sentir ainda mais desconectado daquele lugar.
Ok, é uma forma de pensar. Mas... e se não for bem assim?
Talvez não seja a cidade que tenha mudado. Talvez esteja tudo como sempre esteve ou como seria normal que estivesse com o passar do tempo. Como posso esperar que um lugar como aquele seja o mesmo de vinte anos atrás se nem eu sou o mesmo de vinte anos atrás?
Como diria Machado de Assis em seu Soneto de Natal:
"Mudaria o Natal ou mudei eu ?"
Eu sei. São pensamentos confusos que até me lembraram uma velha e querida música do início dos anos 70 (Wot´s... Uh The Deal), que fala sobre alguém que está apenas tentando acompanhar o giro da roda, a centenas de quilômetros de casa e sem ter com quem compartilhar estes pensamentos. Esperando que alguém lhe diga onde está a chave, para que ele possa entrar e se esconder do vento gelado que sopra sua alma, por sentir que está ficando velho.
Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior
PS1: Quase esqueci de mencionar que o que causou a queda da câmera foi um defeito de fabricação do suporte fazendo com que o eixo do engate se soltasse da alça. O problema foi resolvido posteriormente, em casa, com a ajuda de uma ferramenta de precisão conhecida como Martelo. Algumas pancadas estreitaram o furo que acomoda o eixo evitando que ele escapasse novamente. É evidente que só isso não foi suficiente para sair por aí usando a alça novamente. Confiança perdida é um negócio sério. Não se reconquista assim tão fácil. Vai levar em tempo até esta alça alcançar o status de preferida novamente.
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