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Ensaio sobre o Eco

Outro dia, durante uma aula de teologia, ouvi uma frase que ficou comigo e que, com alguma frequência, visita meus pensamentos:

"Tristes são os dias que os olhos não podem ver."

Não consegui descobrir quem é o autor então vou atribuí-la à professora que a proferiu.

Não lembro ao certo o que ela quis dizer com essa frase. Mas sei como ela me atingiu.

E mais uma vez lanço mão desse recurso para escrever. A partir dessa frase, ou em torno dela, escrevi alguns versos. Quem sabe, virem letra de alguma música autoral no futuro.

Ocorre que, ultimamente, por algum motivo, meus textos estão partindo de imagens ou cenas isoladas e não a partir de um assunto, que seria o mais natural. É como se uma imagem ou cena ficasse passeando de forma recorrente nos meus pensamentos até encontrar significado ou sentido dentro de alguma experiência pessoal.

São exemplos disso alguns dos textos mais recentes abaixo:

- Mapa Poético da Desilusão (Um aviso numa máquina de refrigerantes).
- O Brilho Desbotado dos Sonhos (A visão da jornada da vida como uma montanha).
- Enquanto o Café Esfria (Um xícara de café frio).
- A Bagagem da Vida (Uma mala de viagem).

E, finalmente,

- Frases de Máquina de Escrever. (As marcas indeléveis de maquinas de escrever).

O problema é que, a princípio, não gostei do resultado dos versos e este texto é fruto de uma reflexão sobre essa insatisfação.

Do meu ponto de vista inicial, identifiquei dois problemas: Considerei algumas das imagens que utilizei como clichês e também me chateou o fato de aqueles versos (que você poderá ler logo abaixo) não serem capazes de explicar a verdade e a profundidade do sentimento que os originou.

Nesse meio tempo, acabei entendendo que clichê não é sobre a imagem ser conhecida, é sobre ela ser decorativa ou necessária. Se a imagem é necessária, não é clichê. Essa resolução acalmou minha inquietação no que diz respeito aos clichês.

Porque, às vezes, uma janela aberta continua sendo só uma janela aberta.

Mas, às vezes, deixar uma janela aberta para que a chuva entre e molhe tudo por dentro, é o último gesto de alguém que busca despertar reação onde as palavras já não fazem mais efeito.

A diferença não está na janela. Está na verdade que a abriu.

Mas ainda restava outra insatisfação: se a verdade é o que legitima a imagem, por que ainda sinto que a imagem não basta para carregar essa verdade?

Acredito que isso seja resultado de uma vida inteira trabalhando em áreas técnicas, escrevendo e-mails, relatórios, manuais, etc. Talvez eu tenha me acostumado a explicar tudo em detalhes, sem margens para interpretações. 

Ocorre que, depois de tanto tempo escrevendo neste site, tenho aprendido que, uma característica importante para alguém que escreve é: confiar no leitor. Crer que ele tem capacidade de entender ou interpretar as coisas por si próprio. Deixar espaço para que ele forme sua própria imagem.

Porque, se pararmos para pensar, dificilmente a linguagem poderá ser maior que a experiência. Ela apenas aponta para a experiência.

Por exemplo:

"Quando a chuva chegar, deixarei as janelas abertas."

Eu sei exatamente o significado desse verso. Mas o leitor provavelmente nunca saberá.

Então, inevitavelmente, o verso sempre perderá alguma coisa. Mas, por outro lado, ele ganhará outra. Ele deixa de ser sobre a minha janela. E passa a ser sobre a janela de quem lê. É aí que a mágica acontece.

Porque algumas frases ou versos não são feitos para explicar. Mas para preservar um eco. Eles não carregam o sentimento inteiro. Eles carregam uma imagem suficientemente verdadeira para que outra pessoa coloque dentro dela a própria vida.

Isso vale para um poeta. Mas vale também para alguém apaixonado ou para quem perdeu alguém.

Enquanto eu me incomodava pelo fato de um verso não conseguir conter toda a verdade que o originou, acabei percebendo que, talvez, nem precise.

Porque uma carta de amor certamente nunca carregou um amor inteiro. Você pode ler cada palavra. Mas você nunca terá acesso ao amor que existiu entre eles.

Assim como uma fotografia nunca representará uma infância inteira. A fotografia preserva a luz daquele dia. Talvez preserve uma expressão. Mas não preserva o cheiro da roupa. Não preserva o timbre da voz e nem a conversa. Mesmo assim, ninguém diria que aquela fotografia perdeu seu valor.

Porque, mesmo que as palavras sejam, muitas vezes, insuficientes, elas continuam sendo a nossa melhor tentativa.

Continuamos abrindo janelas e esperando que o barulho da chuva e do vento desperte novamente o coração de alguém.

E, talvez, seja justamente isso que faz com que uma frase simples, como a de um pai falecido, resgatada de uma rede social (que já tratei aqui antes), quando nasce de uma experiência verdadeira, encontre abrigo dentro da vida de outra pessoa. Afinal, a linguagem nunca foi um recipiente perfeito para os sentimentos. Ela sempre foi, e talvez sempre será, o suficiente.

O suficiente para que o resto seja reconstruído pela memória.

Porque, no fundo, nunca estivemos tentando preservar a vida inteira. Sempre estivemos tentando salvar aquilo que bastava para encontrá-la de novo. 

Pensando bem, talvez essa seja uma definição bem bonita do que é a arte: não a tentativa de capturar a vida por completo, mas de impedir que o essencial se perca.

Dias Que Não Podemos Ver
22/07/2026

Quando a chuva chegar,
Deixarei as janelas abertas.
Quando o vento soprar,
Deixarei que ele grite o teu nome

Quando o outono chegar
Talvez a gente se entenda
Quando o inverno acabar
Talvez a gente se encontre

Mas há um silêncio maior
Vivendo em certezas perdidas
Porque tristes são os dias
Que os olhos não podem ver

Quando o amor acabar
Estarei disfarçando a ausência
Quando a morte chegar
Estarei a uma longa distância

Mas há um silêncio maior
Morrendo em certezas perdidas
Porque tristes são as miragens
Do que não podemos viver

Obrigado por ler até aqui!
Até a próxima!
Fabior

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